O mesmo de novo?
Repetição de situações cotidianas, excesso de expectativa ou insatisfação com o que a vida tem a oferecer? Afinal, por que sentimos tédio?
Por: Pamela Cristina Leme
Desgosto, aborrecimento, dissabor, enjôo, repugnância, fastio, cansaço, incômodo. Esses são alguns termos que os dicionários usam para designar a palavra tédio, sentimento que brota de tudo aquilo que faz as pessoas se sentirem enfadonhas consigo mesmas. Todo mundo está sujeito, em qualquer tipo de circunstância, a ficar entediado por horas ou dias. O problema é quando esse fardo domina e escraviza o ser humano. Mas por que situações do dia-a-dia ou momentos pontuais de repente parecem tão chatos e sem sentido?
Não existem estudos que apontem com exatidão as origens do tédio, mas é possível estabelecer alguns motivos pelos quais alguns indivíduos são mais propensos a passar por ele. O psicanalista carioca Pedro Salem, autor do livro "Do Luxo ao Fardo - Um Estudo Histórico Sobre o Tédio" (Editora Relume-Dumará), acredita que o tédio é uma emoção quase inescapável em alguns momentos da vida. "Se tomarmos o tédio como uma espécie de incômodo difuso relacionado à ausência de um móvel de satisfação, é inevitável reconhecer que todos o sentimos, um momento ou outro", analisa. Ele pontua que tudo aquilo que não reproduz os preceitos básicos de uma sensação - ser experimentada no curto prazo, de modo intenso, imediato e com impactos corporais importantes - acaba sendo visto como monótono, desinteressante e fonte de tédio.
De acordo com o médico, esse sentimento pode ser experimentado de diferentes maneiras pelos indivíduos. Para ele, um dos determinantes do tédio pode ser o significado dado aos momentos em que não há estímulos de algum objeto externo. "Acho que aquelas pessoas que tendem a ver os intervalos ou o repouso entre estímulos como algo vazio, e não potencialmente criativo, são aquelas que possuem mais tendência a sentir tédio", sinaliza. O psicanalista conta que embora situações extremamente repetitivas e rotineiras sejam mais facilmente geradoras de tédio, não há circunstância em si que conduza inevitavelmente a essa sensação de um tempo que parece ter ficado estagnado. "É provável que situações extremamente repetitivas e rotineiras sejam mais facilmente geradoras de tédio. Entretanto, acredito que não haja situação em si que conduza inevitavelmente ao tédio", garante.
A hora da rotina
A psicóloga da PUC-Rio Adriana Nunan afirma que algumas pessoas são capazes e gostam de viver uma vida rotineira, enquanto outras não suportam a idéia de que os dias passem e nada novo aconteça ou ainda que tenham de fazer as mesmas tarefas mais uma vez. "O tédio tem a ver com a forma como encaramos a vida. Tem gente que precisa de pequenos rituais para sentir segurança e outros que se sentem mal por não conseguir alimentar a vida de perspectivas o tempo todo", defende. Segundo ela, a forma como as pessoas são educadas na infância, bem como fatores biológicos (como a personalidade inerente a cada um) e distúrbios patológicos (como a distimia, uma espécie de depressão baixa e constante) podem estar entre as razões que levam alguns a sentirem mais tédio que os demais.
Salem enfatiza que é possível imaginar pessoas que extraiam satisfação da rotina e da repetição de determinadas atividades se conseguem depreender um sentido do que fazem. Isso ocorre pelo fato de que tais indivíduos encontram um sentido naquilo que executam, e dele são capazes de extrair prazer. Por essa razão, o tédio pode muito bem ser associado à insatisfação pessoal, no sentido que as práticas tediosas ou aqueles momentos em que alguém se entedia lhe parecem esvaziados e, aí sim, se tornam chatas ou monótonas. "Penso que um dos momentos críticos para o aparecimento da monotonia é o inevitável repouso entre duas experiências excitantes. Se passarmos a considerar que a fonte de nossa felicidade depende da intensidade de nossas sensações, começaremos a significar os intervalos entre elas como tédio", condensa.
Dissabor vital?
Quem se aborrece com a rotina ou com situações que parecem insossas e vazias sempre tem a impressão de que as experiências gratificantes ficaram para trás. Tal enfado pode levar a incapacidade de iniciar alguma atividade que acabe com esse estado, já que há a sensação de que nada pode mudar o quadro entediante. Nesse processo, o tempo parece que passa muito devagar e as horas não acabam nunca. Para evitar ou sair desse bloqueio mental, é preciso entender o tédio como uma janela a partir da qual é possível reencontrar tranqüilamente a fonte da satisfação.
É dessa maneira, indica o psicanalista do Rio, que o tédio adquire não apenas um sentido positivo, mas uma função absolutamente necessária. Pedro Salem cita como exemplo um texto escrito pelo psicanalista inglês Adam Philips, que defende a idéia de que o tédio deve ser encarado como uma conquista e uma oportunidade no desenvolvimento psicológico. O médico britânico diz que o tédio se relaciona com a questão da espera e com a capacidade fundamental de aprender a tolerar a sensação de vazio.
Nunan aposta que o tédio é positivo quando impulsiona as pessoas a fazerem alguma coisa a respeito e encontrar novas fontes de interesse. E ele pode ser evitado uma vez que as expectativas sobre a vida não sejam excessivas e quando, mesmo com a inevitável prática da rotina, haja a valorização das outras situações legais que também acontecem no cotidiano. "Não é preciso ter complexo de Poliana, mas é fundamental não excluir as outras circunstâncias que enriquecem a vida em virtude daquilo que nos enfada". Em outras palavras, nunca é demais refletir sobre o que, de fato, é chato: a vida, a rotina, o momento ou você?
Dicas para espantar o tédio
A monotonia pode aparecer em qualquer momento: ao regressar de férias ou festas, na convivência, quando chega o inverno e se sai menos. Para combatê-la com eficácia é preciso modificar algumas atitudes internas e circunstâncias externas:
- Não dê espaço ao bloqueio mental e ao cansaço provocados pelo tédio. Ao invés de remoer o passado e afundar o corpo no sofá, procure criar hábitos que resistam à passividade, como ir ao cinema e jantar fora pelo menos uma vez por semana, alimentar o intelecto (procure novos livros, músicas, filmes e revistas e fique ligado nos lançamentos), fazer trabalhos manuais, sair regularmente em viagens ou excursões e praticar atividades físicas;
- Surpreenda-se. Experimente fazer uma coisa que você nunca fez, como convidar alguém diferente para sair, ir dançar num clube que nunca freqüentou, escrever um conto ou praticar um esporte radical. Mas nada de encher o programa de expectativas. Simplesmente deixe acontecer e aproveite ao máximo;
- Passe os momentos de aborrecimento inevitável (ou rotinas das quais é impossível fugir) em atividades mais interessantes quando estiver nas horas vagas, como ler um livro de bolso, resolver mentalmente algum problema e escrever uma carta ou um e-mail;
- Se você se aborrece em situações ou momentos pontuais convém fazer uma reflexão dirigida e replanejar a própria vida, substituindo os fatores estafantes por outros que divirtam ou criem curiosidade.