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Amores possíveis?
Carência, desilusão com ex-parceiros, medo de relacionamentos sérios, fantasia ou... amor? Conversamos com especialistas para conhecer as razões que levam uma heterossexual a se apaixonar por um homossexual

Por: Pamela Cristina Leme

Ele é charmoso, sensível, amigo, bonito, inteligente e elegante. Poderia ser o homem dos seus sonhos, não fosse um detalhe pra lá de fundamental: o cara é gay. Se para algumas mulheres esse é um motivo mais do que suficiente para não mergulhar num sentimento amoroso pelo sujeito, outras acabam numa situação delicada: se apaixonam por ele. Tal circunstância ainda é rara no universo feminino, mas não é impossível de acontecer. Basta pensar no cenário atual. Nunca as mulheres reclamaram tanto da falta de homem no mercado ou no quanto eles parecem cada vez mais avessos a compromisso ou intimidade. Se isso é verdade ou não, ninguém fez um estudo para comprovar. O fato é que hoje a solidão está presente na vida de muitas mulheres, inclusive das belas e emancipadas.

Esse contexto, no entanto, está apenas na superfície. Para começar, é impossível apontar apenas um motivo que leva uma mulher a querer cair nos braços de um parceiro gay. O psicólogo e terapeuta sexual João Batista Pedrosa, especializado no atendimento a homossexuais, diz que, antes de tudo, esse tipo de caso exige uma série de questionamentos. "Como uma mulher pode se sentir confortável com um homem gay quando sabe que ele gosta de transar com outro homem? Será que ela não foge de um relacionamento com um homem hetero? Ou tem medo de se envolver ou se entregar plenamente a um heterossexual?", pergunta. Para a psicóloga Adriana Nunan, autora do livro "Homossexualidade: do Preconceito aos Padrões de Consumo" (Editora Caravansarai), a resposta é simples: parte dessas mulheres se deixa levar por um sentimento mais profundo, mas não esperam uma relação de troca. "Elas não querem mais homens para um relacionamento sério e resolveram abrir mão dos padrões tradicionais de uma relação, por isso dispensam casamento ou filhos", explica.

Klécius Borges, psicólogo especialista em terapia afirmativa para gays e lésbicas, divide a mesma opinião. Por isso, acredita que o amor de uma heterossexual por um homossexual se desenvolve mais em aspectos românticos do que sexuais. "Em alguns casos, a proximidade entre uma mulher e um gay é interpretada como amor, mesmo que não haja ligação erótica", aposta. Ele diz que um gay pode ter relações sexuais com uma mulher hetero e se sair muito bem, mas não vai deixar de ter desejos por homens. A relação, portanto, nunca vai atingir sua plenitude. "A sexualidade de um gay é direcionada para outro homem gay. Ele sente atração sexual por alguém que tenha características sexuais masculinas - pênis, barba, bigode etc. Portanto, esse mito de que um relacionamento entre uma mulher hetero e um homem gay será efetivo não corresponde à prática", garante João Batista.

Algumas mulheres também não conseguem enxergar o gay como ele é, mas como gostariam que fosse. Isso porque acreditam que o homem só é gay porque ainda não se envolveu com uma mulher de verdade - e essa mulher é ela. "Elas se apaixonam por eles acreditando na ilusão de quem podem transformá-los em hetero", ressalta Adriana. Ela conta que, em muitos casos, a amizade e a identificação (ou afinidade) com o homem gay fazem com que a mulher confunda o tipo de amor que recebe dele. Primeiro, porque os homossexuais são sempre apontados como mais sensíveis que os heteros - "o que não passa de um preconceito. Na verdade, qualquer pessoa que tenha vivido uma situação em que é julgada por ser como é aumenta seu potencial de análise", ressalta a psicóloga.

Segundo, os gays são encarados como homens que têm características valorizadas pelas mulheres, como sensibilidade, educação, gentileza, e o que as pessoas chamam de "bom gosto" - para se vestir ou para cozinhar, por exemplo. E isso não acontece por acaso. Pesquisas de mercado mostram que, devido à dificuldade dos casais homossexuais em terem filhos, eles têm um poder aquisitivo 44% maior que os heteros e, por isso, gastam mais com roupas, perfumes e produtos para consumo próprio.

A psicóloga Dra. Maria Alves de Toledo Bruns, coordenadora do Grupo de Estudos em Sexualidade Humana da USP (Universidade de São Paulo), confirma essa premissa. "A mulher encontra no homem gay aquilo que gostaria de ver no hetero. Entre as mulheres de classes A e B, há a visão do homem bem-sucedido, que cuida do corpo, é elegante e entende melhor a alma feminina", explica. Para ela, desde que a mulher saiba que não pode esperar nada além do amor de amigo e do sexo sem compromisso - por vezes para satisfazer fantasias sexuais de ambos -, não há perigo nessa história.

"O relacionamento nunca será concretizado de fato. É sobre isso que a mulher hetero precisa ficar atenta ao se apaixonar por um gay", sinaliza Dra. Maria. Em outras palavras, se a preocupação é se divertir, mulheres heteros e caras gays podem se dar muito bem. "Qualquer relação é possível por certo tempo", resume Klecius. O risco, no entanto, é cair num envolvimento maior, quando surgem planos para um futuro que não tem chances de ser comum.

SERVIÇO

Dra. Adriana Nunan
Consultas: (21) 2511-6396
Site: www.adriananunan.com

Dr. João Batista Pedrosa
Consultas: (11) 3031-2493
Site: www.syntony.com.br/pedrosa

Dr. Klecius Borges
Consultas: (11) 3891-0838
Site: www.kleciusborges.com.br

Grupo de Estudos em Sexualidade Humana da USP
E-mail: toledobruns@uol.com.br
Site: www.sexualidadevida.psc.br

Fonte: Site Guia da Semana, seção Mulher, 14/6/2006.