English / Español

Casamento em alta
Por: Renata Fernandes

00:20 - “Amar é estar com alguém, é zelar, é manter, com dedicação e afeto, é cuidar. Amar é construir, é querer conhecer e estar aberto ao diferente....” O renomado psicanalista Erich Fromm cita a frase acima em seu livro “A Arte de Amar”, da Editora São Paulo. Ele diz ainda que o que importa é o amor constituído por maturidade, autoconhecimento e coragem. Por isso, todas essas afirmativas devem estar presentes no momento em que um casal decide se casar. Afinal, o amor deve ser o fator primordial nesta decisão. Segundo a psicóloga e terapeuta corporal Cinthya Fernanda de Oliveira Garcia, é preciso que os parceiros saibam previamente o que mobiliza a união entre eles, pois o amor é para ser desenvolvido. “No início, tudo que existe é um admirar e gostar. Amar é mais do que isso, é querer, nutrir e aceitar”, diz. Para o psicanalista de São Paulo, Armando Colognese Júnior, é importante não confundir amor com paixão. Ele diz que quando se trata do amor verdadeiro este deve prevalecer sob as uniões matrimoniais. Contudo, alguns casais acreditam na fusão como forma de amor, no grude de ficar sempre “juntinhos” e isso não é sinônimo de amor.

“Muitos pares pensam que casamento é a possibilidade de não se separarem e isso não é verdadeiro. Nesses casos, é que a frustração surge ou aumenta. Amar é querer dizer, é o desejo de estar junto, de cumprir metas, de buscar e encontrar cumplicidade, apoio no crescimento pretendido”, afirma. A psicóloga do Rio do Janeiro Adriana Nunan ressalta que esses elementos são tão importantes na decisão do casar, como para a manutenção do matrimônio. Ela afirma que para o casamento ser duradouro deve conter algo além do amor, companheirismo, comunicação, respeito, tolerância e objetivos em comum. Por mais que o casamento esteja “na moda”, ou não, as pessoas não devem se impulsionar ao ato influenciadas por outras. O casamento é considerado uma das etapas mais importantes da vida, mas não é porque o círculo de amizades e até mesmo a sociedade cobrem essa posição, que a pessoa precisa decidir se casar.

Os especialistas afirmam que é primordial haver autoconhecimento e amadurecimento para resolver a questão que, aliás, segue em mão dupla. Ou seja, não basta apenas um dos parceiros querer, os dois devem estar conscientes e dispostos a se unirem pelo matrimônio. Cinthya lamenta e reconhece que muitos se casam apenas com a possibilidade de adquirir status, seja porque o marido ou mulher são populares e reconhecidos, seja para não ficar só. “Hoje em dia, o que está na moda está relacionado com o que está ‘de acordo’, e isso está diretamente ligado à imagem e aceitação. Então, para se sentir aceita e ‘aprovada pela sociedade’ e para se tornar reconhecida e foco dos comentários, a pessoa opta pelo casamento como alternativa para satisfazer essas buscas.”

Adriana ressalta que agir por impulso e não pensar nas conseqüências, a longo prazo, esse ato é perigoso. “Há os que adotem a postura de “se der errado eu me separo”, com isso mais uma vez agem sem pensar nas conseqüências legais e emocionais que um divórcio acarreta.” Colognese lembra que a moda é criada (“e pega”) para satisfazer necessidades e por isso, ele até arrisca dizer que os enlaces tenham voltado à tona por necessidades profissionais daqueles que cercam as cerimônias. No entanto, ele acredita que o casamento está menos aversivo e recuperou certo prestígio. “Anda menos aversivo e, curiosamente, menos para homens do que para mulheres. Não acredito que seja por modismo, mas sim para tentar garantir companhia e prevenir a solidão.”

Para um relacionamento saudável:

:: Dê importância à individualidade e pratique atividades de interesse individual e pessoal
:: Dialogue, converse e exponha seus pontos de vista
:: Desenvolva a escuta, ouça o que o parceiro tem a dizer
:: Dê atenção aos seus próprios sentimentos
:: Pratique alguma atividade juntos, se for possível
:: Respeite o diferente
:: Procure atividades que proporcionem a reflexão e o autoconhecimento

Fonte - Cinthya Fernanda de Oliveira Garcia

Maturidade
Estabilidade emocional é um dos fatores que faz com que muitas pessoas decidam por casar. Nessa busca, quando o amor está presente a estabilidade é conseqüência. O psicanalista diz que depois de certo tempo o que se chama: “quero aproveitar a vida”, vira certa rotina sem graça. Por isso, é necessário manter alto grau de infantilismo para continuar a levar a vida de um adolescente, mesmo em idade madura. “O grupo, naturalmente, evolui e o imaturo fica para trás. Ao procurar uma ‘união estável’, procura-se sim estabilidade emocional, mas não se deve confundir a estabilidade com uma forma de buscar ficar estável.

A estabilidade é do casal. A pessoal deve vir antes do casamento, pois durante o mesmo será necessário encontrar forças, de preferência na maturidade, para enfrentar as novidades que a vida conjugal proporá.” Para Cynthia, o casamento traz essa estabilidade porque as relações afetivas desenvolvidas, de fato, são mais estáveis, diferentes das intempéries das paixões. “Quando os parceiros estão comprometidos com o relacionamento amoroso, este tende a ser mais maduro e duradouro, oferecendo a possibilidade do desenvolvimento de um autoconhecimento com o outro e por meio do outro.”

Pesar os prós e contras é importante
Se a vontade de casar é por comodismo, moda, mudança na rotina ou medo da solidão, a decisão deve ser adiada. Os especialistas garantem que o matrimônio deve ser consumado por amor, por mais piegas que possa parecer. Mas não se desespere se houver dúvidas quanto à tomada de decisão. Segundo o psicanalista Armando Colognese Júnior, aqueles que acreditam não ter dúvida alguma, devem repensar para não entrar numa situação sem a avaliação correta. “De certo modo é natural ter dúvidas antes de se casar, pois não deixa de ser uma situação nova e desconhecida.” A psicóloga e terapeuta corporal Cinthya Fernanda de Oliveira Garcia diz que as dúvidas sempre existirão. O que tem de ser refletido é se : “interesso realmente em me aprofundar no relacionamento com esta pessoa?”, “admiro esta pessoa?”, “estou disposto (a) a querer ver o que há de agradável e desagradável nela” e assim por diante. “Perfeito ninguém é. Até o homem (mulher) mais charmoso do mundo, num relacionamento mais intenso irá mostrar seu lado sombrio”, afirma.

Adriana Nunan, psicóloga no Rio de Janeiro, acredita que se existem dúvidas sobre a decisão do casamento é porque algo no relacionamento não está bom e este problema deve ser resolvido antes de ser oficializado. “Vale lembrar que quando alguém se casa está tomando uma decisão que afeta não só a vida dela, mas a do companheiro e das famílias.” O sonho do casamento, ao contrário do que muitos pensam, não é exclusivo das mulheres. Os homens, tanto quanto elas, sentem vontade de se casar. Colognese diz que é inerente ao ser humano querer estabilidade e companhia, já que o ser humano é gregário. “As mulheres podem e são incentivadas a divulgarem seus sonhos, diferentemente deles.” A diferença, na opinião de Cinthya, é que para a mulher muitas vezes a imagem do casamento está ligada a relação estável firme e segura, ao constituir família, e isso é do feminino: gerar, nutrir, acalentar.

Já para os homens existe a necessidade de procriar, por sua própria natureza, o que para eles não precisa ser com uma única mulher. “Isso é instintivo, mas com o amadurecimento dos sentimentos e relações, eles podem viver por um período prolongado de tempo com a mesma mulher”, diz. Independentemente de gênero, ao decidir se casar é fundamental que ambos aceitem o outro como ele é. Colognese comenta que quem pensa que depois de casar “dou um jeito nele (ou nela)” está iludido, pensa ser mais poderoso do que realmente se é. Cinthya lembra que casar é compartilhar o amadurecimento, é ser responsável pela relação, é verdadeiramente estar com o outro no sentido pleno da palavra. As uniões vencedoras, são as que se sustentam pelo amor.

Serviço:
- Adriana Nunan, psicóloga, mestre e doutoranda em psicologia, fone (21) 2511-6396
- Armando Colognese Júnior psicanalista, fone (11) 3842-6241
- Cinthya Fernanda de Oliveira Garcia, psicóloga e terapeuta corporal, fone (17) 3235-6964

Glamour da cerimônia não deve ofuscar o amor real
O glamour tem tomado conta dos casamentos. Basta folhear as colunas sociais para perceber que semanalmente há cerimônias religiosas e festas cheias de pompas. A moda é casar sob um ritual inesquecível. Não importa se no campo, na cidade, na praia, apenas no civil ou no religioso. O importante é fazer diferente. Em meio à fantasia, muitos esquecem o real significado do enlace e preocupam-se apenas com o dia de glória. No entanto, o amor ainda é a mola propulsora para a união a dois, independentemente de estar ou não em evidência, nas páginas de revistas e jornais. Segundo a sexóloga e psicóloga Maria Helena Matarazzo, autora de vários best-sellers, entre eles “Coragem para Amar”, “Nós Dois,” “Namorantes” e “Amar é Preciso”, a década de 80 foi marcada pela revolução sexual e todos os casamentos vieram abaixo porque as pessoas ficaram com a idéia errada do que era liberdade. Ela diz que, na ocasião, as pessoas acharam que podiam tudo, valia tudo e quanto mais melhor.

“O povo casava e descasava várias vezes. Daí veio outra geração, a dos filhos de pais divorciados. Eles sofreram com as conseqüências dessas separações e ficaram com pavor de casar. Afinal, o casamento representava todos os conflitos e sofrimentos que vivenciaram com os pais. Então, essa geração (não inteira, mas boa parte dela) optou por morar junto e encontrou formas alternativas de viver a dois.” Maria Helena lembra que na década de 90 houve uma fase de hiper-romantismo, quando voltou a se falar que as mulheres são românticas. “Na verdade, uma geração contraria a outra, mas elas sempre procuraram o príncipe encantado, seja antes, durante ou depois da revolução sexual. Por isso, nos anos 90 elas assumiram e voltaram a ter fantasias de encontrar um príncipe. A diferença é que em vez dele vir num cavalo branco, tinha de vir numa Mercedes branca, de preferência.”

Com isso, as mulheres voltaram a acreditar em amor eterno e que ao se casar seriam “felizes para sempre”. Mas todos sabem que na vida real não é assim que funciona. “Independentemente disso, a geração dos anos 90 se casou. Obviamente, como em todas as gerações, houve quem casasse e quem não casasse. Hoje, o pessoal voltou a casar, mas o casamento virou um espetáculo.” A especialista acredita que vivemos na sociedade do espetáculo, em que o que importa são as aparências. “O casamento atual é um show. As pessoas gastam uma fortuna e depois passam um ano ou mais pagando por aquela noite, festa, lua de mel ou lua de fel, seja o que for. É uma coisa alucinante. Existe toda uma indústria por trás disso”, afirma. Por um lado, toda essa “estrutura” gera empregos, já que há pessoas especializadas em criar esse show, como floriculturas, fotógrafos, cabeleireiros, cinegrafistas, bandas, Djs, bufês etc.

“É uma ilusão. Chega na igreja tem tanta vela, luz e flor que a cerimônia em si e seu significado profundo, a união entre as duas pessoas, se perde totalmente. Ao perguntar no dia seguinte à noiva como foi, como ela se sentiu, a resposta é duvidosa, pois ela não lembra de nada, não sentiu nada. Por causa do exagero, por causa da sociedade do consumo. A frase hoje não é ‘penso, logo existo’, mas ‘consumo, logo existo’. O seu valor é tanto quanto o que consume. Há nisso, muito exibicionismo”, diz.

E o amor, onde fica diante do espetáculo?
Mas e o amor? O amor, na opinião de Maria Helena, no período que antecede a data do casamento fica em segundo ou terceiro plano. Ela considera que as pessoas ficam completamente tomadas pelas providências da cerimônia, preocupadas com as decisões, que brigam e, às vezes, esquecem que o motivo da união é o amor. “A preocupação em saber qual fogão, sofá ou helicóptero comprar as fazem esquecer do principal motivo daquilo tudo.” Talvez esteja aí a grande diferença entre casar e morar junto, pelo menos nesse início. Maria Helena enfatiza que a diferença desejável entre casar e morar junto seria que o casamento readquirisse seu significado e simbologia. “Não é necessário ter cinco fotógrafos, cinco cinegrafistas e 15 holofotes para se casar. Isso faz com que os sentimentos fiquem bloqueados. Hoje em dia, há muitas formas alternativas de as pessoas viverem juntas, sem recorrer ao casamento. O importante é que este seja, de fato, resgatado, porque o matrimônio é o resultado da união entre duas pessoas que querem se comprometer uma com a outra e isso desapareceu”, diz.

A sexóloga ressalta que o casamento deve seguir os dizeres: “na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. “O ideal é o casal se unir para lutar juntos.” Felizmente, em geral, a sexóloga afirma que o amor ainda prevalece. Mas lembra que o amor verdadeiro é aquele companheiro, amigo, fiel e humilde. “É tudo o que se diz nessas reportagens e revistas, é um pacotão. Os parceiros devem dar o melhor de si ao outro, porque aí esse pacote gera estabilidade, estrutura e cria-se a família.” A tendência dessa geração, de acordo com a escritora, é que as pessoas se casem mais de uma vez na vida e que o preceito católico “o que Deus uniu, o homem não separa”, atualmente, é renegado. “Não sei como é nas outras religiões, mas na igreja católica essa geração praticamente desconhece esses preceitos. Seguir esses princípios é de uma ou duas gerações anteriores. Hoje, as pessoas se baseiam em outras conveniências e valores.” O fato é que não existe certificado de garantia para a felicidade. O que existe, segundo Maria Helena, é o compromisso entre duas pessoas de se dar as mãos e crescer juntas, de modo que um ajude o outro a crescer dando o melhor de si.

Serviço:
Maria Helena Matarazzo, socióloga e sexóloga com especialização em terapia individual e de casais e mestrado em educação sexual. Autora de vários livros, entre eles “Amar é preciso” e “Namorantes”, da editora Record.

Fonte: Diário da Região, caderno Vida & Arte (21/5/2006)