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O fenômeno de Brokeback Mountain
Como o sucesso do filme de Ang Lee está movimentando a economia destinada aos homossexuais

Por: Fábio Altman

Aaron Kampfe tem 37 anos de idade. Seu companheiro, David Heinzen, está com 38. Eles comandam, desde 1995, uma agência de viagem nos Estados Unidos prioritariamente destinada ao público gay. Um dos pacotes (US$ 1.945 por pessoa) oferece excursão de sete dias, com refeições incluídas, em um rancho no estado de Montana. Desde o início de dezembro do ano passado, quando 2089 salas americanas começaram a exibir o filme O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, a empresa do casal viveu um sucesso inesperado. “A procura triplicou”, disse Kampfe à DINHEIRO. Espertos, os dois trataram de mudar o nome do passeio, agora denominado “Montana Brokeback Mountain Ranch Vacation”. O apelo é direto: conhecer a paisagem do filme, candidato a oito estatuetas do Oscar no próximo dia 5 de março. Embora tenha sido realizado em locações no Canadá, o drama de Jack Twist e Ennis del Mar é vivido no meio oeste dos Estados Unidos, terra dos caubóis de jeans e cintos largos. A idéia de atrelar Brokeback ao turismo soa apenas como lance de marketing, mas é isso e muito mais. É a ponta de um fenômeno. “Gostei do filme pela autenticidade”, diz Kampfe. “Era realmente difícil ser caubói e homossexual nos anos 60 e 70. Hoje é mais simples, as pessoas já aceitam, o preconceito diminuiu”.

Nota-se essa diminuição da intolerância, embora ela ainda persista (os risinhos tolos nas salas de cinema são indício dessa persistência) nas cifras que giram ao redor da produção. Ela já acumulou US$ 111 milhões, tendo consumido apenas US$ 14 milhões na realização. Somente no Brasil, 400 mil pessoas já foram às salas. A partir delas, no mundo ocidental, o interesse chegou às ruas. Nos Estados Unidos, homens usam chapéus de vaqueiro para expor a opção sexual. Na internet, é natural, circulam piadas e paródias. As camisas usadas pelos atores foram leiloadas no eBay por US$ 101 mil. Brokeback Mountain virou postura de vida a alimentar o que se convencionou chamar de “mercado gay”. As estatísticas não são claras, mas ele existe. Um estudo realizado pela internet com 6.300 pessoas concluiu que gays e lésbicas, nos Estados Unidos, chegam a receber US$ 65 mil por ano – o equivalente a 60% mais que a família comum americana. Chegam a gastar até US$ 299 por mês com entretenimento e roupas. São cosmopolitas: 82% têm passaporte, diante da média americana de 18%. “Por não criarem filhos, por não terem a preocupação da herança, poupam menos e gastam mais”, diz a psicóloga carioca Adriana Nunan, autora do livro “Homossexualidade: do Preconceito aos Padrões de Consumo”. Ela chama a atenção para as diferenças entre EUA e Brasil. “Aqui, o mercado ainda é pequeno, está mais ligado ao entretenimento, ao serviço”, diz Adriana. “Por lá, já há uma vastidão de produtos que fazem crescer um pedaço da economia”. É um avanço que o sucesso de Brokeback Mountain amplia, embora o roteiro do filme tenha permanecido nas gavetas de Hollywood, rechaçado, durante sete anos. Leva-lo às telas, ainda que tardiamente, é mais digno que a obtusa postura do Papa Bento XVI. Na semana passada, o Vaticano deflagrou uma ofensiva contra a cultura gay, reunindo teólogos em conferências com um único objetivo: frear a legalização do casamento entre homossexuais e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. É o avesso do que o mundo, muito provavelmente, verá celebrado com a delicadeza oriental de Ang Lee na noite do Oscar.

Fonte: Revista Istoé Dinheiro, n. 441, p. 64-65. (1/3/2006)