Filosofia de vida
Esqueça o passado
Por: Renata Fernades
00:30 - "Carpe diem" quer dizer "aproveita o dia". A expressão em latim pode ser encontrada originalmente no poema "Odes" do poeta romano Horácio: "Carpe diem quam minimum credula postero", que significa "Aproveita o dia, não confie no amanhã". E é essa a filosofia de vida que muitas pessoas têm seguido. Mas, além de não se preocupar demais com o futuro é preciso não acumular fatos do passado. Especialistas em comportamento garantem que para aproveitar o dia e seguir em frente com tranqüilidade é importante que os fatos do passado estejam bem resolvidos. De acordo com o psicoterapeuta e psiquiatra de São Paulo Luiz Cuschnir, resolver o passado é como reestruturar o que ficou para poder continuar, crescer e fazer um novo caminho. "As possibilidades de não se ter aprendido nada com o que ocorreu, dão pouca chance para não incorrer em novos enganos", afirma. Para a psicóloga do Rio de Janeiro Adriana Nunan, as situações mal resolvidas do passado trazem conseqüências para o presente e afetam negativamente, consciente ou inconscientemente, as decisões e atitudes tomadas.
O psicólogo de Rio Preto Josinel Braga Carmona ressalta que quanto mais em paz se está com o passado maiores são os benefícios obtidos no presente. Aliás, ele lembra que hoje será o ontem de amanhã, por isso enfatiza que a melhor forma de construir um futuro sem traumas do passado é viver o presente com equilíbrio, de forma saudável e com bons relacionamentos. Adriana diz que várias podem ser as conseqüências das situações mal resolvidas, uma delas é o medo extremado de repetir erros. Como exemplo ela cita um homem que na infância tenha sido duramente disciplinado pelo pai e, traumatizado com o fato, jura não repetir o mesmo com seu filho. "Se o indivíduo não trabalhou bem esse trauma ou mágoa pode fazer o oposto com seu filho e não discipliná-lo de modo algum também trará conseqüências negativas", diz. Diversas são as áreas e os motivos que geram situações mal resolvidas. Para saber qual não está de fato solucionada basta prestar atenção nas questões que ainda trazem desconforto, geram estresse, atormentam, desestabilizam o emocional, tiram a paz. "Todas as situações e o que irá gerá-las são particulares demais, pois o que pode ser trauma ou mágoa para uma pessoa pode não ser para outra", diz Carmona.
Cuschnir acrescenta que mal resolvido é tudo aquilo que ainda atrapalha. Para uns pode até ser de pouca importância, mas o que depende é como a situação atinge a pessoa. "Não se pode avaliá-la racionalmente ou pela própria experiência. A dor de cada indivíduo só é vivida por ele mesmo, com suas experiências e preparo para lidar ou não com ela." Adriana esclarece que com freqüência as situações mal resolvidas são segredos pessoais ou mitos familiares, dos quais se evita falar. "O problema é que quando um trauma não é trabalhado geralmente se transforma em um sintoma e afeta, sem que percebamos, outras áreas da nossa vida", afirma. O psiquiatra Luiz Cuschnir reforça que acumular mágoas, independentemente de quais sejam, denota o quanto a pessoa está despreparada para lidar com as frustrações da vida. "Por isso é que ela só acumula e não consegue dissolvê-las." Adriana enfatiza que acumular mágoas do passado não só prejudica as decisões e atitudes (presentes e futuras) como também afeta a saúde física. "Não podemos mudar o passado, mas podemos mudar a forma como o enxergamos", afirma.
Conversa ajuda a diluir os problemas passados Conversar ainda é uma boa saída para aproveitar melhor o dia e não se preocupar com fantasmas do passado ou preocupações futuras, conforme dizem especialistas em comportamento. No entanto, ao se tratar de mágoas profundas ou traumas graves o ideal é buscar ajuda terapêutica ou grupos de ajuda mútua. A psicóloga carioca Adriana Nunan afirma que a melhor maneira de esquecer determinadas situações é falar sobre elas, por mais doloroso que isso possa ser em alguns casos. O psicólogo rio-pretense Josinel Braga Carmona acredita que falar sobre o trauma ou mágoa é terapêutico e ajuda a dissolver a forte emoção causada inicialmente por ele. "Falar sobre o que incomoda é terapêutico, se for em um ambiente especial para isso, como num consultório psicológico, melhor ainda", afirma.
Carmona diz que existem dois tipos de traumas: os
inevitáveis
e
os evitáveis. Os inevitáveis são aqueles que obviamente não se
consegue evitar como a morte de um ente querido ou quaisquer surpresas
desagradáveis
que fogem ao controle. Nesses casos, o psicólogo recomenda que a
procura
por
um profissional seja imediata. Já o evitáveis são aqueles em que as
pessoas
podem se preparar e evitar que aconteçam, como a organização do dia. O
psicoterapeuta Luiz Cuschnir afirma que organizar implica avaliar,
enxergar,
entender e conseguir perceber caminhos que possam trazer um
crescimento, mesmo com o que ocorreu no passado. "Se a pessoa não
aproveita um fato passado para crescer internamente, para amadurecer e
elaborar, as coisas permanecem não resolvidas. Ao relembrar o passado
pode-se rever como foi
e
diferenciar do que é.
As pessoas que não conseguem fazer isso, podem estar
vivendo como no passado e não como deve ser agora", diz Cuschnir.
Adriana Nunan ressalta que relembrar o passado com alegria é bom
porque mostra o quanto
se
foi feliz. O problema é ser saudosista em excesso e deixar de viver o
presente ou deixar de fazer planos para o futuro porque se está preso
ao passado. "O passado pode ter sido bom ou ruim, mas como a própria
palavra diz ele 'passou'. Quem faz nosso presente e nosso futuro somos
nós mesmos
e,
esses sim, podem ser muito melhores."
Serviço:
- Adriana Nunan, psicóloga, pós-graduada em Comunicação
Social,
membro da Sociedade Brasileira de Terapias Cognitivas (SBTC) e membro
fundador da Associação de Terapias Cognitivas do Estado do Rio de
Janeiro (ATC-Rio), fone (21) 2511-6396 site- www.adriananunan.com
- Josinel Braga Carmona, psicólogo, fone (17) 3226-7376
- Luiz Cuschnir, psicoterapeuta e psiquiatra do Centro de
Estudos da Identidade do Homem e da Mulher (Iden), fone (11) 3056-9860
site - www.luizcuschnir.com.br
Fonte: Diário da Região, caderno Vida & Arte, p. 1C (25/1/2006)