Educação
Dinheiro e criança
Por: Renata Fernandes
00:30 - Educar os filhos não é uma tarefa fácil. Educá-los financeiramente, menos ainda. No entanto, a educação financeira deve começar cedo, ainda na infância. Segundo a especialista e educadora financeira Cássia D'Aquino, nos países desenvolvidos, tradicionalmente, cabe às famílias educar as crianças sobre finanças e às escolas fica reservada a função de reforçar a formação que o aluno aprendeu em casa. Contudo, ela lamenta o fato de no Brasil a educação financeira não fazer parte do universo educacional familiar e tampouco escolar. Com isso, a criança não aprende a lidar de maneira correta com o dinheiroem casa, nem na escola. Ela diz que as conseqüências deste fato são determinantes para uma vida de oscilações econômicas, com graves repercussões na vida adulta. A psicóloga Adriana Nunan acredita que a arte de administrar dinheiro deve ser ensinada aos poucos às crianças. Ela afirma que as crianças aprendem, em primeiro lugar, por observação e imitação dos adultos ao seu redor. Isso significa que se os pais não lidam bem com dinheiro, provavelmente, os filhos também não desenvolverão uma relação saudável com ele. Ou seja, se os pais são extremamente contidos ou, pelo contrário, são perdulários (gastam demais) a tendência é que a criança siga o exemplo.
Para a criança começar a aprender desde cedo a administrar dinheiro e entender o valor de objetos, o ideal é ensiná-la a comprar pequenas coisas que goste, como balas, pirulitos ou gibis, por exemplo.
Outra opção, segundo Adriana, seria levar a criança ao supermercado com o objetivo de mostrar critérios de escolha como custo-benefício, preço, qualidade, promoções etc. Durante a compra a mãe/pai pode conversar com a criança e explicar por que está escolhendo determinado produto. "Vale lembrar, no entanto, que ir ao supermercado pode ser uma experiênciadesagradável para alguns pais, pois existem crianças que fazem manha e querem comprar tudo o que vêem. Nesse caso recomendo estabelecer um limite, como combinar que ela terá direito a comprar apenas alguma coisa para ela (um pacote de biscoito, ou bala) e manter-se nesse limite", diz.
Cássia explica que as pessoas constróem a base da relação com o dinheiro até por volta dos 5 anos de idade. Por isso, atitudes que funcionaram na infância e levaram a conseguir os resultados desejados serão, em boa parte, responsáveis pela formação da mentalidade financeira que se terá na vida adulta. Adriana lembra que ao ensinar uma criança a administrar o dinheiro, ensina-se também habilidades matemáticas básicas, fundamentais para o desenvolvimento cognitivo da criança.
O problema é que o que é considerado sadio, responsável e equilibrado para uns não é para outros, porque as prioridades das pessoas são diferentes. Mas, de um modo geral, Adriana afirma que é importante ensinar à criança a discriminar entre objetos que são necessários para a sobrevivência como comida e roupas (sem exageros) e aqueles que são supérfluos como roupas de marcas específicas e jóias. "O correto é ensinar a criança a não esbanjar, a usar suas coisas até elas acabarem e a não comprar em excesso. A noção de desperdício de luz, água e comida, por exemplo, é fundamental, não apenas por uma questão financeira, mas por já ser um problema atual do nosso planeta. Ao aprender sobre o desperdício a criança também aprenderá noções básicas de ecologia." O modo como cada pessoa lida com as finanças reflete as próprias emoções, ambições, valores e sentimentos de auto-estima. "Tanto que não é difícil, por exemplo, reconhecer em adultos mimados traços egocêntricos da criança que cresceu sem que ninguém impusesse limites aos seus desejos." Contudo, ela ressalta que nada é tão definitivo em relação à falta de jeito para lidar com as finanças que não se possa, no decorrer da vida, consertar e aprender. "Mas o ideal mesmo é receber, ainda criança, a educação em relação ao dinheiro", afirma.
Serviço:
- Adriana Nunan, psicóloga, mestre em psicologia e doutoranda em psicologia clínica pela PUC-Rio, membro da Sociedade Brasileira de Terapias Cognitivas (SBTC) e membro fundador da Associação de Terapias Cognitivas do Estado do Rio de Janeiro (ATC-Rio), fone (21) 2511-6396
- Cássia D'Aquino Filocre, especialista em educação financeira, membro da International Association for Citizenship, Social and Economics Education (IACSEE), fone (11 3257-8167. Site: www.educfinanceira.com.br
Dicas de livros:
:: "20 Dicas para ajudar você a administrar sua mesada", de Cássia D'Aquino, Editora Me Poupe.
:: "20 Dicas para ajudar você a educar seu filho", de Cássia D'Aquino, Editora Me Poupe
Quando iniciar a mesada?
Uma questão que atormenta muitos pais é saber qual o momento ideal para falar sobre dinheiro com as crianças ou quando começar a dar a famosa mesada. Segundo a psicóloga Adriana Nunan, as crianças devem começar a lidar com dinheiro quando passam a entender números, o que ocorre, geralmente, por volta dos quatro anos de idade. Ela diz que opções de brinquedos bastante úteis para essa fase de desenvolvimento são banquinhos para guardar moedas, como os famosos"porquinhos", mini-supermercados, carteiras, moedeiros, dinheiro de mentira, entre outros. "Claro que quando se trata de crianças muito pequenas me refiro a dinheiro em quantias pequenas, como as moedinhas. Mas, é preciso tomarcuidado para que elas não levem as moedas à boca", afirma. Uma outra sugestão é os pais levarem o filho junto para pagar contas em banco, padarias ou lojas e dar o dinheiro para ele, e ir junto, até o caixa para pagar. "Muitas crianças gostam bastante desta 'brincadeira' e aprendem outras noções importantes, tais como responsabilidade e autonomia", diz. Já a mesada deve entrar em vigor por volta dos seis ou sete anos de idade, quando a criança começa a freqüentar a escola mais regularmente.
De acordo com a especialista em educação financeira Cássia D'Aquino, a principal e única função da mesada é colaborar na educação financeira da criança. Contudo, ela diz que mesada é importante para a educação financeira, mas não é fundamental. "A mesada existe para treinar o hábito financeiro adequado em crianças e adolescentes." Outra dúvida comum entre os pais é quanto ao valor mínimo que se deve dar de dinheiro aos filhos. Adriana diz que a quantia dependerá muito da condição financeira de cada família mas, de um modo geral, ela não recomenda dar valores altos à crianças, mesmo que os pais sejam ricos. Valores considerados adequados são aqueles suficientes para comprar uma merenda, refrigerante, bala, figurinha ou revista, por exemplo. "Como crianças geralmente saem acompanhadas de adultos, objetos mais caros, tais como brinquedos e roupas devem ser comprados pelos próprios pais", diz. Cássia sugere, como referência geral, que os pais calculem o valor a ser dado à criança obedecendo ao seguinte
critério: R$ 1 por idade, por semana. Desse modo, uma criança de 11 anos de idade, por exemplo, deveria receber cerca de R$ 44 por mês.
Fonte: Diário da Região, caderno Vida & Arte, p. 1C (28/12/2005)