Adolescentes gays
Como as mães estão encarando a questão
Não, não é uma boa notícia. Sim, você pode ficar triste. Mas, passado o susto, os pais têm um desafio pela frente que, se superado, vai fortalecer o relacionamento de toda a família Regina Valadares Ninguém quer ter um filho ou uma filha homossexual. Por mais esclarecidos que sejam os pais, a notícia cai sempre como uma bomba. Desperta culpa, suscita raiva, vergonha, tristeza..."Não queria ter uma filha gay", diz Loreta*, 49 anos, arquiteta. Há cinco anos, quando Renata*, 19, chamou-a no quarto para conversar e contou que era lésbica, ela caiu no choro."Tudo que consegui dizer foi:'Eu queria que você casasse e me desse netos!' "Levou três meses para parar de chorar e mais um ano até entender que não era culpa dela."Ficava me torturando:'Será que foi a minha separação? Será que fui superprotetora? Onde foi que errei?'"
A reação de Loreta é comum. Segundo a psicóloga carioca Adriana Nunan, autora de Homossexualidade: do Preconceito aos Padrões de Consumo, os pais geralmente acham que fizeram alguma coisa errada e que, por culpa deles, o filho ou filha optou por esse caminho. "Mas não é algo que se escolhe ou que pode ser ensinado", afirma Adriana. "A idéia de que uma mãe dominadora e um pai ausente geraram a homossexualidade do filho é baseada em teorias antigas que já foram 'desconfirmadas'. Se fosse assim, após períodos de guerra, quando os homens se afastam de suas famílias para lutar, veríamos um aumento significativo de homossexualidade. Isso, naturalmente, não ocorre." De qualquer forma, vem o questionamento. O bancário Maurício*, 57 anos, soube há três meses que seu filho mais velho é gay. "Não entendo o que aconteceu.
Não foi comigo que ele aprendeu isso. Jogo futebol todo fim de semana, nado, não tenho amantes, sou bem-casado e gosto de fêmeas. Ele não seguiu o meu exemplo." Zeca* tem 17 anos, se assumiu há dois e só agora teve coragem de contar em casa. "Para amenizar, disse que era bi. Minha mãe começou a chorar e meu pai perdeu a fala. Com certeza não ficaram felizes com a notícia. Mesmo assim, sei que me aceitaram, sinto-os mais próximos de mim", conta. Embora Maurício sofra muito com a novidade, está se esforçando para se conformar. "Não entendo, mas estou resignado", confessa. Há dois anos fiz uma cirurgia cardíaca. Preferia ter morrido a passar por esse problema na família, mas fazer o quê? É melhor do que se ele fosse drogado, né?"
O desespero é tanto que a maioria dos pais, ao receber a notícia, acaba se surpreendendo com a própria reação. "Bati na minha filha até nós duas cairmos no chão, exaustas", conta Sônia*, 47 anos, professora de inglês. Há um ano, sua única filha, Luana, 15, contou que gostava de outra mulher. Foi uma facada no meu coração. Tive que convencer meu marido a não colocá-la para fora de casa e, desde então, eles não se falam. Até hoje não sei o que aconteceu. Se Deus quiser, vai passar, é só moda, uma fase", diz, com o olhar vago de quem já não acredita muito nas próprias palavras. "Não é fase, muito menos doença. E não há nada que se possa fazer a respeito, a não ser ajudá-la a lidar com os preconceitos que terá que enfrentar", comenta Adriana Nunan. Entre eles, brincadeiras grosseiras, olhares incriminadores e até violência física... Há movimentos e ONGs batalhando para que a sociedade olhe com respeito esses cidadãos. Mas, se ser aceito em casa já é difícil, imagine no mundo lá fora... "Tinha calafrios imaginando que poderiam chamar meu filho de bichinha", diz Vânia*, 38 anos, comerciante. Ela tentou de tudo para que ele "largasse mão dessa bobagem" e voltasse a ser homem. "Minha mãe chamou até um exorcista!", conta Danilo*, 17 anos, que saiu do armário há quatro. "Jogou minhas roupas fora e substituiu por outras que achava mais masculinas. Disse que meu problema era não ter encontrado uma moça legal e que ela mesma ia arranjar uma namorada pra mim! Só sossegou quando o psicólogo falou que não era possível me fazer mudar e que, se me amava, tinha que me aceitar como sou." Muitas vezes, a notícia é apenas uma confirmação, pois os pais já intuíam, mesmo que inconscientemente. Nem por isso deixam de tentar convencer o filho de que está enganado. Vânia levou dois anos para aceitar. Não queria que ele sofresse, temia que fosse se meter com gente esquisita, mas conheço seus amigos, são pessoas ótimas, e quem não sofre neste mundo?" Sônia, por sua vez, ainda está tentando. "Não vou me afastar de Luana, eu a amo muito, mas ainda não consegui digerir essa história."
Os pais têm todo o direito de pedir um tempo para acomodar suas emoções, diz Lidia Aratangy, psicóloga de casais e de família. "O filho amadureceu a idéia, pensou o que ia dizer, escolheu o momento, por isso tem que permitir que a mãe e o pai façam o mesmo caminho." Ela enfatiza que, mesmo sem entender, os pais podem acolher se mostrando abertos para ouvir mais do que falar. Edith Lopes Modesto, escritora e fundadora do primeiro grupo de pais de homossexuais pela internet, considera esse o momento em que os filhos mais precisam dos pais. "Paradoxalmente, é quando estes estão menos capacitados a apoiá-los." Ela, que viveu na pele essa experiência, tem certeza de que nada pode ser mais útil do que a verdade. Ajuda, também, parar de buscar a causa e focar na dificuldade de aceitar a diferença. "É outra forma de amar, de ser, de viver a sexualidade", diz Bianca Alfano, coordenadora do departamento de psicologia da ONG Arco-Íris, no Rio de Janeiro, que oferece atendimento psicológico gratuito a toda a população GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) e familiares.
Porque é extremamente sofrido para o adolescente se perceber diferente. Uma pesquisa americana revela que o índice de suicídio entre jovens gays é três vezes mais alto que entre os heterossexuais. Ao contar em casa, afirma Adriana, a pessoa pretende ser aceita na sua totalidade, isto é, quer parar de fingir ser algo que não é, deseja compartilhar seus sentimentos e idéias abertamente, sem estar constantemente preocupada com a avaliação dos outros.
Mais que tudo, esse filho ou filha quer o amor da família. E poder contar com ele é o melhor começo.
*Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados
O difícil processo de aceitar a diferença
Hoje eu sei que, desde cedo, os homossexuais se percebem diferentes e aprendem que são considerados inadequados. As pessoas, injustamente, os vêem como anormais.E eles têm de esconder a homossexualidade dos colegas, do vizinho e, principalmente, de seus pais! Vivendo esse conflito,se fecham em si mesmos.Eles têm poucos amigos e, sobretudo, não têm quem os oriente.
Qualquer criança, qualquer jovem,quando sofre, procura a mãe: Mamãe, fulano me chamou de tampinha...de gorducha... de quatro-olhos..." Os nossos filhos homossexuais, quando ofendidos, ao contrário, tendem a se retrair, não denunciando nem procurando ajuda, pois sabem que a sociedade discrimina o diferente. E sofrem calados, sem poder se dar ao direito da proteção materna. Ficam sós, jogados à própria sorte, lutando em segredo contra o seu autopreconceito e contra o preconceito social.
E, assim, provavelmente, aconteceu com o meu filho caçula. E eu? Onde estava eu, a mãe que deveria dar-lhe carinho, apoio, deveria protegê-lo dos perigos, do sofrimento?
Como todas as mães, antes de ele nascer, preparei um enxoval azul quando soube que ia ter um menino. Mais tarde, fiquei feliz ao perceber que ele era bonito e inteligente e esperava que ele arrumasse uma namorada, se casasse e nos desse netinhos.
Eu percebi, sim, que na adolescência esse filho tornou-se um garoto triste, calado, distante,mas sempre arrumei uma desculpa para isso. Nem me passou pela cabeça que ele pudesse ser gay.
Gay? Na verdade, eu não tinha a mínima idéia do que é ser gay. Um dia, estranhando o seu jeito fechado e o fato de nunca ter namorada,eu lhe perguntei se não gostava de mulheres.E o meu mundo caiu, quando, chorando, ele me disse que era gay.
A descoberta da homossexualidade de um filho quase sempre é uma tragédia para os pais.Para nós também foi como se aquele filho querido desse lugar a um outro, estranho, desconhecido... Passei por um processo lento de aquisição de conhecimento e aceitação. Fiquei brava, inconformada, triste, desesperada, senti medo, vergonha... E me senti muito só. Não tinha com quem conversar. Qualquer semelhança com o que meu filho certamente sentiu não foi mera coincidência. Os pais, como seus filhos, também passam por um processo de aceitação, também têm de sair do armário e também precisam de apoio. Um apoio que seu filho/a homossexual dificilmente tem condição de lhes dar.
Na época, o meu maior desejo era conversar com outra mãe como eu.Trocar idéias, sentimentos, desabafar... Mas não consegui encontrar nenhuma! Poucos anos depois, fundei o GPH - Grupo de Pais de Homossexuais
(MAES_DE_HOMOS@UOL.COM.BR) - para que os pais pudessem se encontrar.
Hoje somos 25 pais no grupo. Conversamos entre iguais, trocamos informações,nos ajudamos mutuamente nos momentos de desalento e nos sentimos fortalecidos, principalmente porque sabemos que, com o nosso apoio, nossos filhos se sentirão mais seguros e felizes.
Edith Lopes Modesto
Fonte: Revista Claudia, n. 1, ano 45, p. 130-133. (janeiro, 2006)