Uma cena carioca
O posto 9, há exatos 20 anos, ganhou um mini-Stonewall. Seu protagonista nos conta
Por: Arnaldo Adnet
Era o primeiro horário de verão após um hiato de vários anos. Eu encantado com o cara que tinha conhecido no Boteco do Samir (aquecendo para ir ao Sótão, na Galeria Alaska) e com quem tinha marcado praia no dia seguinte.
Às seis e pouco daquela segunda-feira ele foi me encontrar no trabalho, no Leblon. Estávamos identificados com a cultura underground. Mas isso nem de longe queria dizer que nos restringíssemos aos (sub) espaços reconhecidamente gays.
Fomos ao Posto Nove. A Farme já começava a pegar, especialmente nos fins de semana e no alto verão. Mas a nossa praia era mesmo o Nove. Deitamos na mesma canga e fomos conversando, entretidos com a pluralidade de coincidências que nos ligavam. De mãos dadas - bem próximos - pedimos um sorvete. Adorei quando pingou chocolate na sua coxa: limpei com uma lambida.
Alguns carinmhos mais tarde, um policial chegou pagando esporro, provocando reação igualmente agressiva do meu novo namorado. Pedi calma aos dois e disse que não havia porque se exaltarem. Já tinha aprendido a lidar com a polícia, enfrentando "duras" diárias enquanto morava na St. Romain. Fomos levados até o oficial, na calçada. Logo estávamos cercados por uma platéia que combinava os demais freqüentadores do Posto Nove e alguns motoqueiros que vinham da Garcia, faixa de areia nitidamente mais conservadora.
Ao questionário de identificação de praxe, seguiu-se o seguinte
diálogo:
"- O que vocês estavam fazendo?
- Estávamos na praia.
- Vocês estavam fazendo amor?
- Não, senhor. Amor, nós vamos fazer logo mais, em casa. Estávamos apenas namorando. Há alguma lei que impeça isso?
- Creio que não. Vocês podem voltar à praia, desde que não passem dos limites.
- Quero saber exatamente quais são os limites, por favor: - beijar pode? - dar as mãos pode?
- Pode o que vocês quiserem. Só não pode vir alguém denunciá-los, como este rapaz aqui, que terei de verificar a ocorrência. "
O público, que então temíamos, surpreendeu aplaudindo a cena e oferecendo-se para "dar uma lição" no tal banhista, ao que declinamos agradecidos. No dia seguinte - 11 de novembro de 1985 - na coluna Informe JB, assinada por Ancelmo Gois, era publicada a seguinte nota:
Cena Carioca
"Dois rapazes se afagavam ontem no território livre do Posto Nove, Praia de Ipanema, quando um banhista indignado resolveu denunciá-los.
Interpelados pelo policial eles disseram: somos homossexuais sim e achamos que não há nenhuma lei que impeça isso. E voltaram para a areia sob aplausos da galera delirante."
Uma semana depois descobrimos a nota publicada por um jornal baiano, ao vê-la no mural de um bar de Salvador, uma semana mais tarde, onde estávamos em viagem de lua de mel. Vivemos casados 17 anos e hoje somos melhores amigos.
"Ao contrário do que se pensa, a rua não é um lugar assexuado, mas é freqüentemente considerada um espaço heterossexual por excelência. Os heterossexuais não valorizam esta característica da rua da mesma foram que não valorizam a liberdade de poderem expressar suas identidades em todas as esferas sociais, sejam estas relacionadas com o trabalho, casa ou entretenimento. Visto que o espaço também pode ser contestado, a heterossexualidade da rua não é imutável e sua sexualidade está sendo constantemente desafiada e re-estabelecida. Assim, muitos hetrossexuais preconceituosos buscam negar a presença legítima de homossexuais nas ruas através de mostras de desaprovação, sanções oficiais ou agressões. Neste sentido, são comuns as expressões do tipo "vamos limpar as ruas destes doentes" ou "aqui não é lugar para este tipo de gente", pois o controle sobre a forma como o espaço é produzido é fundamental para a habilidade dos heterossexuais de reproduzirem sua hegemonia."
NUNAN,A. & JABLONSKI,B. Homossexualidade e Preconceito: aspectos da subcultura homossexual no Rio de Janeiro. Arquivos Brasileiros de Psicologia,v.54,2002. p. 21-32
Fonte: Site Mix Brasil, seção Arena (8/12/2005)