Comportamento
Quando o amor se transforma em violência
Carla andava triste e calada. Sentia-se muito só. Um dia, em uma festa, na casa de uma amiga, conheceu Rita. Sorriso largo, ótimo senso de humor. A amizade deu origem a algo mais. Em pouco tempo estavam morando juntas. O conto de fadas, no entanto, não durou muito. Aos poucos Rita foi mostrando um ciúme excessivo. Controladora, seu humor variava do tudo para o nada em segundos.
Tanta instabilidade fez Carla pensar em dar um tempo. Escolheu o melhor momento e foi falar com Rita. Enquanto falava via os olhos da amada se transformarem. O que começou com uma aparência de dor, virou ódio. Antes que pudesse fazer qualquer coisa sentiu o tapa.
Era como se todo seu corpo estivesse queimando. Rita parecia uma louca. Eram tapas, chutes, empurrões. Foi tudo tão rápido e pareceu durar uma eternidade. Horas depois, Carla teve coragem de se levantar do chão. Olhou-se no espelho e não acreditou no que viu.
Infelizmente a história de Carla e Rita é mais comum do que parece. Assim como em relações heterossexuais, muitas lésbicas sofrem com a violência doméstica. É neste momento que o preconceito se torna ainda mais cruel. Se mulheres que apanham de seus maridos temem procurar ajuda, o que dizer quando esta agressão vem da sua companheira, mulher?
No entanto, é importante destacar que a dinâmica da violência doméstica não está ligada ao gênero, mas ao poder, explica a psicóloga Adriana Nunan . Esta diferença pode incluir o grau de assunção da homossexualidade (quando uma das duas é mais assumida do que a outra); renda; escolaridade; classe social; raça; etc. "No caso das lésbicas e gays, a violência doméstica também está muito relacionada com o preconceito internalizado, ou seja, o sentimento que a pessoa nutre por si mesma em função da sua homossexualidade".
A mesma opinião é partilhada pela psicóloga Kátia Horpaczky. "Assim como nas relações heterossexuais, trata-se do poder e controle que uma exerce sobre a outra. As lesbianas que são violentas com suas parceiras buscam estabelecer e reforçar seu poder sobre elas", comenta.
O que leva lésbicas e heterossexuais a suportarem tais agressões são os mesmos motivos, explica Adriana. "Elas têm medo de que a agressão piore, caso denunciem as(os) parceiras(os). Acham que não terão o apoio de ninguém e que as pessoas não acreditarão nelas. Também, muitas vezes, não têm para onde ir, não têm dinheiro ou amam o agressor mesmo sabendo que ele é violento. No caso dos homossexuais estes problemas são agravados pelo preconceito; se já é difícil que a sociedade reconheça a existência de casais homossexuais, imagina ter que lidar com o fato de que alguns destes casais são violentos?".
A violência doméstica entre casais gays só começou a ser estudada na década de 90, mas ainda há muita resistência em abordar o tema, comenta Kátia. Neste período de estudos, dois mitos foram desfeitos: o estereótipo de socialização da mulher (naturalmente elas são não-violentas) e a visão idílica das relações lesbianas (seriam relações entre iguais, fora de toda forma de poder). Acreditava-se que as lésbicas estavam imunes. Afinal, não estão".
Mesmo com este avanço, ainda é difícil encontrar nos serviços de atendimento público (Delegacias da Mulher), profissionais preparados para atender ocorrências deste tipo.
No Rio de Janeiro, o trabalho da Delegacia de Atendimento à Mulher, comandada pela delegada Catarina Noble, vem se tornando referência nesse segmento. Desde que resolveu encarar o problema de frente, a delegada abriu espaço para organizações que atuam em defesa dos homossexuais, e conquistou o respeito e a confiança das lésbicas.
Como muitas lésbicas, Márcia também se casou. "Sou de cidade do interior onde isto é um verdadeiro tabu. Por falta de conhecimento e medo também não me aceitava, aí conheci um carinha legal e terminamos nos casando", comenta. Há cerca de dois anos um outro homem surgiu em sua frente. "Ele quis me violentar"
Embora a agressão tenha sido feito por um homem, Márcia é um exemplo de coragem. Denunciou o marido e conheceu a equipe da Dra. Catarina. "Não só ela, mas toda a DEAM é ótima. Lá somos tratadas, ainda que sejamos atendidas por um homem, como pessoas de bem, sem julgamentos, com o devido respeito".
A questão da violência também foi notada pela Dra. Érica Renata de Souza. Durante elaboração da sua tese de doutorado pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, com financiamento da FAPESP, ela que estudava a "Necessidade de filhos: maternidade, família e (homo) sexualidade", acabou por deparar-se com o tema.
Aos poucos as entrevistas abriram as portas para relatos contundentes sobre uma realidade cruel. Em trecho da tese ela escreve - " Ainda que tais categorias - mulher e lésbica - sejam construções sociais e atos performáticos criados a partir da oposição entre as expectativas para o feminino e o masculino, podem ser incorporados e reproduzidos em relações lésbicas hierarquicamente construídas. As ações e comportamentos são sempre paródias de um modelo ideal, resignificações desse modelo, mas as relações hierárquicas podem continuar reproduzindo, em certa medida, as estruturas de uma oposição idealizada entre o masculino e o feminino. E, nesse processo, a associação dos privilégios masculinos com a agressão reconquista o seu espaço, mesmo nas relações entre mulheres."
Para Adriana Nunan , é possível que duas pessoas possam voltar a conviver após uma agressão, mas o período de terapia costuma ser longo. Ela diz que alguns estudos têm demonstrado que pessoas que participam em uma dinâmica de violência doméstica, tanto vítimas, como agressores, tendem a ter sido submetidas a violência quando crianças, isto é, ou sofriam violência física por parte de seus pais ou observavam sua mãe apanhando. Com o tempo essas crianças acabam achando que esta é uma forma "normal" de relacionar-se, pois não conhecem outros modelos.
Fonte: Revista Les, n. 3, p. 12-13 (setembro, 2005)