Pais gays e os filhos do afeto
Reavaliar os próprios conceitos é tarefa digna de toda mente aberta às realidades que desafiam o senso comum. Em agosto, o Dia dos Pais oferece oportunidade para uma reavaliação, particularmente para os que consideram a paternidade coisa exclusiva de heterossexuais e a criação de filhos algo intrinsecamente ligado ao casamento entre homem e mulher.
Por Washington Calegari (jornalista)
Uma face dessa realidade é a adoção de crianças por gays, mas há também os homens que já se relacionaram com mulheres, tiveram filhos biológicos e hoje se reconhecem homo ou bissexuais e os gays que, mesmo cientes de sua orientação, decidiram ter filhos biológicos. Esse cenário ajuda a compor novas feições de família.
O fisioterapeuta Fabrício*, 38 anos, é um exemplo do primeiro caso. Pai adotivo de um menino de sete anos, ele agora tenta a adoção de uma menina.
"Até cogitei me casar com uma mulher [...], mas percebi que, dessa forma, estaria usando alguém para realizar um projeto meu", diz ele, que namora um rapaz há quatro anos e cita o livro "Retrato em Branco e Preto", de Angelo Pereira, como o responsável pela revelação de que poderia ser pai adotivo.
No Brasil, a adoção por casais gays ainda não tem amparo legal, mas é possível adotar como solteiro. "Muitos dizem que os gays não podem ou não querem ter família, mas aqueles que lutam por esse direito têm que falar de filhos, de relacionamentos estáveis", destaca a administradora de sistemas de saúde Irina Bacci, 34 anos, ex-presidente da organização não-governamental Famílias Alternativas.
Aceitação
O engenheiro Camilo*, 52 anos, é pais de dois filhos com sua ex-esposa e hoje comemora a chegada de seu primeiro neto. "O relacionamento com meus filhos sempre foi pautado pelo amor e respeito [...]. Não foi muito complicado me assumir gay", conta. "O mais novo sacou logo de cara. O mais velho perguntou na lata: 'entre vocês dois, tem mais do que amizade, né?'. Então, ele foi apertar a mão do meu companheiro. Foi bonito".
Fabrício conta que seu filho lida bem com o fato de o pai namorar outro homem. "Fui preparando o terreno com historinhas, apresentando amigos e amigas que formam casais homossexuais, mostrando exemplos positivos. Decidi que não deixaria que ele soubesse por outra pessoa", recorda.
Esconder a orientação sexual pode causar problemas, adverte Irina Bacci, "mas dividir sua vida com seu filho pode ajudar muito. O que faço é dizer que eu sou lésbica, mas minha filha, não".
Para Fabrício, é importante que essas crianças e seus pais não vivam em guetos, mas que formem alianças de apoio na comunidade homossexual: "Isso favorece uma aceitação plena e fortalece a auto-estima".
Por cima das piadas
Filhos de homossexuais podem ser alvo de piadas, especialmente na escola, "mas não devemos esquecer que a maioria das crianças passa por constrangimentos, seja pelo fato de ser gordinha, usar óculos ou ter uma família X ou Y", compara a psicóloga Adriana Nunan.
Nunan avalia que, quando os pais lidam bem com a própria sexualidade, os filhos tenderão a fazer o mesmo. "Nossos filhos sabem escolher os amigos e namoradas", corrobora Camilo.
Segundo o terapeuta sexual João Pedrosa, os pais devem ter cuidado para que os filhos não sejam vítimas da homofobia. "Para isso, devem esclarecê-los sobre a homossexualidade".
Para Fabrício, as piadas devem ser transformadas em oportunidades para conversar com a criança. Se ela vive em um lar bem estruturado, terá condições de lidar com eventuais provocações "da mesma forma que um filho de mãe solteira, de um casal separado...", observa.
"Antigamente, filhos de pais separados eram rejeitados na escola e às vezes se sentiam inferiorizados ou desvalorizados. Atualmente, nem pensam sobre o assunto", diz o psiquiatra Bernardo de Gregório. "Um dia, pais gays serão tão comuns, que também não haverá mais esse sentimento de menos-valia".
Tal pai, tal filho?
O preconceito também se manifesta na idéia de que os filhos serão influenciados em sua orientação sexual, noção que, no mínimo, desconsidera que a sexualidade envolve não apenas fatores sociais e culturais, mas biológicos (filogênese) e psicológicos (ontogênese). "Isso quer dizer que pais não podem influenciar a orientação sexual de seus filhos, seja para um lado, seja para o outro", ressalta Adriana Nunan, em coro com os demais entrevistados pela Sex Boys.
Camilo avalia, entretanto, que o diálogo influencia o comportamento sexual do filho: "É por meio da educação, do papo franco e aberto que um pai pode passar ao filho suas tradições, crenças". "No mais, esse pai deve dar carinho, atenção e tudo que um pai, independentemente de sua orientação sexual, deve proporcionar para o [...] filho ou filha", completa João Pedrosa.
Cabeça aberta
Se há alguma diferença entre um pai hétero e um gay, ressalta Adriana Nunan, ela é positiva: crianças criadas por homossexuais tendem a lidar melhor com a diversidade e a serem menos preconceituosas.
"Desde que o pai tenha saído do armário para os filhos", pondera Camilo, "ele poderá ser uma pessoa que aborda melhor as diferenças, é mais flexível, vai além do tradicional esquema 'provedor'". Isso, porém, não significa que será mais permissivo, ou seja, "que não vai querer estabelecer limites nem saber que horas o filho vai chegar em casa".
Para Fabrício, um pai com uma visão aberta sobre a sexualidade pode ajudar o filho a entender melhor "as questões do corpo e do amor, dispensando alguns tabus perversos da sociedade judaico-cristã". "Sonho que meu filho tenha uma visão positiva com relação ao seu corpo e ao respeito por sua companheira ou, quem sabe, companheiro", finaliza.
*os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados
Washington Calegari (wocalegari@gmail.com) é coordenador do site Armário X (www.armariox.com.br), voltado a homossexuais que desejam sair do armário, seus pais e amigos.
Fonte: Revista Sex Boys, edição 17 (agosto, 2005)