Violência: de mulher para mulher
Por Timóteo Lopes

13.07.2005 | Aos 56 anos, WF é vista na repartição pública em que exerce o cargo de secretária-executiva como uma excelente profissional, mas também como uma solteirona austera e empedernida que, devido a uma desilusão amorosa na juventude, decidiu nunca mais olhar para outro homem. Não casou, não teve filhos, nunca mais se deu o direito de amar. Para os colegas, WF leva uma vida quase monástica e, acima de tudo, solitária num pequeno apartamento na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, de onde só deve sair para o trabalho, as missas dominicais ou eventuais visitas a irmãos e sobrinhos.
Toda essa imagem estereotipada sem nódoas ou turbulências esteve preste a desmoronar no início do ano. A WF imaginada pelos companheiros de serviço público não existe. Ela, na verdade, nunca amou homem nenhum, nunca dividiu apartamento na Tijuca com a solidão e muito menos leva uma vida de freira. Lésbica desde sempre, a secretária escamoteou com recato que amou e se relacionou afetivamente com algumas mulheres e, se teve algum desgosto amoroso, este aconteceu há pouco - na mesma época em que um tsumani varria as cidades praianas da Indonésia -, tem pele, osso e as iniciais SH.
As duas - WF e SH - tiveram uma vida conjugal de dezessete anos, mas a funcionária pública resolveu acabar com o romance. Desprezada e dispensada, SH não aceitou a separação e passou a jogar pesado com a parceira. Não aceitou sair de casa. Depois, passou a agredi-la fisicamente. Numa segunda-feira, por exemplo, WF apareceu na repartição com um olho roxo e alguns hematomas visíveis pelo corpo, mas conseguiu ludibriar os colegas com a versão de que havia sido atropelada por uma bicicleta que trafegava na contramão de uma rua que ela estava atravessando. Acreditaram. Não satisfeita, a agressora foi mais fundo. "Ela ameaçou contar para todo mundo que eu sou sapatão", revelou WF. "Ela ia acabar comigo, me destruir."
A delegada carioca Catarina Noble ouve, registra, manda para a justiça e tenta resolver como pode há três anos casos como o de WF. Desde que passou a olhar e a coibir a violência entre mulheres lésbicas começou a devassar as entranhas de um mundo sórdido que ela não imaginava existir. Catarina lembra bem de sua perturbação no primeiro boletim de ocorrência. "Levei um susto, fiquei boquiaberta", recorda. Depois, levando ao pé da letra que tudo que é ou vem do ser humano não pode surpreender e horrorizar um policial, ela foi para o centro do furacão. Abriu as portas da Delegacia de Atendimento à Mulher do centro do Rio de Janeiro para as organizações que atuam em defesa dos homossexuais, foi a palestras, encontros, congressos e hoje, sem nem saber que realiza um trabalho pioneiro, adquiriu respeito e confiança entre as lésbicas cariocas.
Contabiliza um ou dois casos de agressão e violência por mês, mas, sem nenhuma estatística oficial, acredita que o número de mulheres que agridem outras mulheres é bem maior e mais grave do que seu prontuário enumera. "A lésbica agredida é uma mulher fragilizada, humilhada, amedrontada", afirma a delegada. "Ela tem medo de vir a uma delegacia contar o drama que está vivendo."
Preconceito em dose dupla
Com treze anos de carreira, casada, mãe de um casal de adolescentes, Catarina Noble é uma policial de voz doce e gestos meigos. Tão desprovida de julgamentos e preconceitos, reúne seguidamente sua equipe para recomendar que as homossexuais - agressoras e agredidas - que chegam até a Delegacia de Atendimento à Mulher não sejam expostas a nenhum constrangimento e, tampouco, hostilizadas por um olhar ou sorriso malicioso. "Somos policiais e não, juízes", frisa. "Não é nosso papel julgar o comportamento ou a opção sexual de ninguém."
É essa prática que faz da delegada carioca uma precursora. Quem atesta a singularidade são entidades que lutam pelos direitos de homossexuais, como o Grupo de Mulheres Felipa de Souza. A ONG que existe desde 1998 agrupa mais de uma centena de lésbicas. "A polícia brasileira, geralmente, não tem profissionais preparados para atender e entender casos de violência contra lésbicas", diz a diretora executiva Rosangela Castro. "Como uma lésbica, que não pode sequer expor sua sexualidade à família e à sociedade, vai aparecer numa delegacia dizendo que apanhou da companheira?"
Por entender que quem cala consente, Rosangela Castro foi uma das primeiras a procurar a Delegacia de Atendimento à Mulher para registrar queixa contra a ex-namorada de sua namorada. A rejeitada não aceitou o fim da relação, surrou várias vezes a ex-parceira e não contente passou a ameaçar e insultar Rosangela. Deu-se mal. Em breve, o processo vai a julgamento e a ativista lésbica espera que a Justiça aja com o rigor necessário e puna a agressora. "Não dá mais para ser vítima do silêncio", prega Rosangela Castro. "Nós, lésbicas, temos que perder o medo de denunciar e abrir a boca."
Não foi a única vez que, em sua condição de lésbica, Rosangela Castro sentiu na carne, no osso e na alma as garras da violência. Na adolescência, no interior da Bahia, conta que foi estuprada a mando do pai de sua primeira namorada. Ficou grávida, fez aborto, foi obrigada a sair da cidade. "Até hoje esse é um acontecimento que pesa muito em minha vida", costuma dizer. "Por mais que a ferida cicatrize e a gente faça plásticas na alma, a marca está ali e eu sei que é para sempre."
Histórias que sangram
O drama de Rosangela é apenas um dos que estão registrados no vídeo "Histórias Lésbicas". O documentário da paulista Maria Angélica Lemos percorre circuitos alternativos para dar rosto e voz a personagens que até então se mantinham invisíveis em suas ásperas rotinas. As histórias sangram. Uma lésbica do interior do Nordeste, por exemplo, narra os insultos e apedrejamentos que sofrera. Outra, do Sul, relembra sua ida ao fundo do poço quando perdeu a guarda de uma filha. Uma terceira relata as barreiras que enfrenta por ter um jeito muito masculino de ser. "Toda vez que preciso entrar num banheiro público, os seguranças avançam." E, arrasada, comove: "Mas eu sou mulher, eu gosto de ser mulher".
Autora do livro "Homossexualidade, do preconceito aos padrões de consumo" e também do único trabalho existente no Brasil sobre a violência doméstica entre as lésbicas, a psicóloga Adriana Nunan garante que as agressões entre homossexuais são muito semelhantes - em número e grau - as que ocorrem entre casais heterossexuais. "A violência está sempre relacionada a poder ou ao preconceito internalizado, ou seja, quando a pessoa não convive bem com sua sexualidade e procura descontar todos os seus dilemas na outra", diz ela. "A lésbica mais assumida é, na maioria das vezes, a mais ameaçadora."
Tudo é tese. Sem nenhuma estatística, num país que não tem dados demográficos sobre a população homossexual, Adriana Nunan tenta apenas entender e explicar o que leva uma mulher a subjugar a outra. Acha que tanto agressoras como agredidas podem ter sido vítimas na infância e lamenta o desamparo das mulheres lésbicas. "Elas não podem contar com nenhum apoio familiar para sair de uma situação de violência doméstica", enfatiza a psicóloga. "O problema é muito sério, mas continua envolto num manto de silêncio, não sendo nem abordado pelas comunidades gays, temerosas de que a exposição ajudará a aumentar o preconceito e a discriminação."
Mas, aos poucos, as organizações de mulheres lésbicas estão abrindo a boca e até ensaiando fazer uma radiografia da transgressão. Apoiadas pela Unesco e pela Lesbian Action Foundation, as entidades já apuram números. Eles podem aparecer a partir de 2.006. Por enquanto, iniciam a campanha "Violência Contra a Mulher é Um Caso de Saúde Pública". Elaboraram questionários que tentam identificar situações de risco, mas também prestar esclarecimentos sobre a melhor forma de proteção, salientando diversos itens que podem ajudar num plano individual de segurança. Um deles, por exemplo, vai ao extremo: "Se a violência for inevitável, defina uma meta de ação: corra para o canto e agache-se com o rosto protegido e os braços em volta de cada lado da cabeça, com os dedos entrelaçados."
Com a autoridade de quem faz do diálogo sua arma mais fumegante, a delegada Catarina Noble assina embaixo de todas as recomendações e quer colaborar ainda mais para coibir a violência entre as lésbicas. Conseguiu aplacar - com uma boa conversa - as ameaças de SH contra WF. Se for preciso, não hesita em aplicar os rigores da lei. Na semana passada enviou para a Justiça o caso de uma mulher que intimidava a ex-namorada enviando-lhe cartas com letras recortadas dos jornais. "Quem cala, consente", não cansa de dizer a policial da Delegacia de Atendimento à Mulher do centro do Rio de Janeiro. "Como ajudar uma mulher que esconde sua condição de vítima?"
Mais do que ninguém, Catarina Noble sabe que a maior violência cometida contra as lésbicas é a falta de visibilidade.
Fonte: Site No Mínimo, Reportagem (13/07/2005)