Entrevista: Adriana Nunan fala sobre o padrão de consumo dos homossexuais
Adriana Nunan nasceu nos Estados Unidos em 1975, tendo se formado em psicologia pela PUC-Rio em 1999, em duas habilitações (psicóloga e bacharel em psicologia). Com dupla nacionalidade e fluente em três idiomas, residiu mais de 12 anos no exterior. Mestre em psicologia e pós-graduada em comunicação social, atualmente cursa o doutorado em psicologia clínica, também na PUC-Rio. Especializada em psicologia clínica e social (sobretudo em preconceito) e em psicologia aplicada ao marketing, Adriana Nunan atende em consultório particular no Rio de Janeiro.
Adriana é autora do título "Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo", adaptação da tese de mestrado em Psicologia Clínica de Adriana, defendida em dezembro de 2001 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Sobre Elas: No livro "Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo" você fez entrevistas com homossexuais masculinos. O resultado pode ser aplicado a homossexuais femininos também ou o comportamento das mulheres é diferente?
Adriana Nunan: O comportamento das lésbicas é um pouco diferente do dos homossexuais masculinos por causa da socialização de gênero (feminina). As lésbicas sofrem duplo preconceito, por exemplo, tanto por serem homossexuais quanto por serem mulheres. A renda dos casais de lésbicas também tende a ser menor porque mulheres geralmente ganham menos que homens e muitas lésbicas possuem filhos pequenos. Por todas essas razões o mercado para lésbicas é diferente do mercado para gays.
S.E. O seu estudo baseia-se em homossexuais da zona sul do Rio de Janeiro.
Gays com poder aquisitivo menor são tão exigentes quanto ou a formação e o meio em que vivem influencia nas suas escolhas?
A.N. O que as pesquisas parecem mostrar é que gays com poder aquisitivo menor também são muito exigentes (se comparados a um heterossexual com a mesma renda), mas, naturalmente, o grau de escolaridade e o meio social em que as pessoas vivem também influenciam suas escolhas.
S.E. Quais os fatores que levam o homossexual a ter um padrão diferenciado de consumo? O nivel de exigência é maior?
A.N. A característica principal do mercado homossexual (sobretudo o
masculino) é que pelo fato da maioria não ter filhos a renda disponível no final do mês para gastar com artigos considerados supérfluos é muito maior.
Assim, estes casais poderiam viajar mais, ou gastar com artigos de luxo, por exemplo. O nível de exigência deste público também é muito maior, assim como propaganda boca-a-boca dentro da comunidade homossexual.
S.E. Qual o posicionamento do mercado brasileiro para este novo nicho?
A.N. Infelizmente o mercado brasileiro não possui um posicionamento claro com relação a este nicho de mercado. A não ser por algumas poucas empresas o preconceito ainda é muito grande quando se fala em mercado homossexual, e a maioria das empresas prefere ignorá-lo.
S.E. Como você observa o comportamento de consumo dos homossexuais em outros países?
A.N. O mercado homossexual varia muito de país para país, mas ele parece estar desenvolvido sobretudo nos Estados Unidos e na Europa. Aqui na América Latina eu diria que a Argentina tem um potencial grande de mercado gay, assim como o Brasil. Comparando o mercado norte-americano com o brasileiro, por exemplo, eu diria que aqui o mercado gay está mais voltado para serviços (agências de viagem, bares, boates, locadoras de vídeo, etc.), enquanto que nos Estados Unidos ele é forte tanto na área de serviços quanto na de produtos.
S.E. No seu curso sobre estudos da homossexualidade, um dos tópicos abordados é a violência doméstica, como ela se dá entre os homossexuais femininos?
A.N. O tema da violência doméstica entre homossexuais é muito interessante, mas ainda pouco estudado. No Brasil, por exemplo, só existe um livro do Grupo Gay da Bahia e um artigo escrito por mim que tratam do assunto.
Curiosamente, ao contrário do que ocorre com as demais áreas de estudos sobre a homossexualidade, a violência entre lésbicas é muito mais estudada do que a que ocorre entre gays masculinos. Isto se deve ao fato de que as lésbicas estiveram engajadas no movimento feminista desde o início e foi justamente neste movimento que começou-se a discutir o tema da violência doméstica. As pesquisas que existem até o momento dizem que a violência entre casais de lésbicas é muito semelhante a que ocorre entre casais heterossexuais, com a diferença que casais de mulheres parecem estar mais fusionados. Devemos sempre lembrar que a violência doméstica é um problema relacionado a poder (não à gênero) e que mulheres podem ser tão violentas com suas parceiras quanto homens com suas companheiras.
S.E. Qual a sua visão sobre o movimento homossexual no Brasil? Quais as nossas deficiências?
A.N. O movimento homossexual no Brasil tem crescido muito nos últimos anos, tendo se tornado bastante forte e atuante. No entanto, acredito que não tenhamos alcançado determinados direitos por causa do tipo de preconceito que existe na nossa sociedade. No Brasil o preconceito é chamado de "moderno" (porque é sutil ou velado), diferente do preconceito que existe nos Estados Unidos, por exemplo, que é mais aberto. Quando o preconceito é aberto ele é mais fácil de ser combatido. No caso brasileiro, como o preconceito se disfarça de aceitação social, muitas pessoas acham que a discriminação a homossexuais neste país não é um problema tão grave assim e que, portanto, não merece atenção. Mesmo com este obstáculo o movimento brasileiro tem trabalhado incansavelmente em prol dos direitos de gays e lésbicas.
S.E. Com relação as terapias de conversão da homossexualidade, qual o impacto que ela exerce sobre o individuo?
A.N. As terapias de conversão da homossexualidade são extremamente prejudiciais para o indíviduo, provocando depressão, suicídio, isolamento, problemas sexuais, questionamentos religiosos e dificuldade de aquisição de uma identidade gay. Como, naturalmente, estas terapias não funcionam, o indivíduo acaba achando que a homossexualidade é um pecado ou doença e que, pior ainda, é culpa dele não ter conseguido mudar. Esta situação provoca um sofrimento psíquico muito grande, que, em vários casos, é carregado pela vida toda.
S.E. Qual a maior dificuldade que um homossexual encontra na hora de assumir sua sexualidade?
A.N. As pesquisas que eu fiz aqui no Brasil sugerem que existem 3 tipos de assunção da homossexualidade: assumir-se para si mesmo, para a família e para a sociedade. Na minha opinião o homossexual corre um risco maior de sofrer peconceito quando se assume para a família e para os amigos próximos, porque pode ser rejeitado por estes ou, em casos mais graves, ser expulso de casa, por exemplo.
S.E. Qual a expectativa que os homossexuais podem ter daqui para frente com relação a aceitação pela sociedade?
A.N. Acho que a tendência é o preconceito diminuir e as pessoas começarem a ver que gays e lésbicas são pessoas como quaisquer outras, com alegrias, tristeza, problemas do dia-dia, etc. Talvez isso demore um pouco mais do que gostaríamos mas, por enquanto, cada um pode fazer sua parte para diminuir o
preconceito: quando a pessoa se aceita tal como ela é, as demais pessoas a sua volta tenderão a fazer o mesmo.
Fonte: Site Sobre Elas, seção Entrevistas (25/1/2005)