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Entrevista para o site Toda Forma de Amor

Especialista em psicologia clínica e social, a psicóloga Adriana Nunan é autora do livro "Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo" obra que mostra o resultado de uma análise da relação sociedade com os homossexuais e ainda traça um perfil do mercado GLS da Zona Sul do Rio de Janeiro. O livro é o resultado da tese de mestrado dela também pela PUC - Rio. Em suas palestras, a psicóloga tem abordado temas como a parceria civil entre pessoas do mesmo sexo, além de homofobia e a relação da violência  doméstica com a homossexualidade masculina. Aqui nesta entrevista exclusiva para o Toda Forma de Amor ela não só fala do seu livro, mas diz como caminha a humanidade quando o assunto é a orientação sexual diferente.

Toda Forma de Amor - Você tem uma experiência no exterior onde nasceu. Existem muitas diferenças com relação à liberdade de viver a sexualidade entre o Brasil e outros países. Parece que aqui somos mais libertos?

ADRIANA NUNAN - A vivência da sexualidade varia muito entre países e acho difícil fazer comparações. No entanto, não acho que no Brasil sejamos mais libertos, mas o preconceito se dá de forma diferente do que nos Estados Unidos, por exemplo.Lá o preconceito em geral (seja contra negros ou homossexuais) é muito mais aberto, o que tem vantagens e desvantagens. A principal vantagem, creio eu,é que pelo fato do preconceito ser mais visível ele pode ser melhor combatido. Talvez por isso o movimento gay nos Estados Unidos tenha obtido sucesso em áreas aonde nós ainda não temos. No Brasil o preconceito é chamado de "preconceito moderno" porque ele é sutil, velado, o que dificulta que nós o reconheçamos e combatamos. Não podemos nos esquecer que, de acordo com as estatísticas levantadas pelo Grupo Gay da Bahia, o Brasil é campeão mundial de assassinatos de homossexuais. O Carnaval pode passar a impressão de que no Brasil aceitamos melhor a homossexualidade, mas isto não é,necessariamente, verdade. Infelizmente, o homossexual ainda contiua sendo considerado como uma figura cômica, caricatural, estereotipada, seja durante o Carnaval, seja no resto do ano.

TOFAM - Seu livro Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo inova ao traçar o perfil do mercado GLS. Ainda existe preconceito na relação empresa e o marketing voltado para esse público ?

ADRIANA NUNAN - Sim, existe muito preconceito. Antes de lançar o livro, por exemplo, logo que terminei o Mestrado, entrei em contato com diversas empresas de marketing e publicidade para dizer que eu era especializada nesse tipo de público, caso eles tivessem algum interesse no Mercado Gay. Foi difícil até de conseguir marcar reuniões. A área de marketing e publicidade é muito fechada, mas muitos empresários nem sequer queriam ouvir falar em mercado homossexual. Acredito que isso seja um erro grave, pois mesmo que uma determinada empresa não deseje atingir o consumidor homossexual ela deve tomar cuidado para não ofendê-lo com determinados tipos de publicidade. As empresas brasileiras não têm esse tipo de preocupação.

TOFAM - A obra também traça um perfil dos gays na sociedade carioca. Essa sociedade é ao mesmo tempo liberal e também preconceituosa ? Esse preconceito vem mais das elites da zona sul?

ADRIANA NUNAN - Como falei anterirmente, o fenômeno do preconceito é muito complicado no Brasil. No entanto acredito que as elites sejam menos preconceituosas do que as classes médias ou baixas, seja por terem maior escolaridade, maiorsucesso financeiro ou menor religiosidade. Acho que este assunto merece uma explicação mais longa:

A correlação entre grau de religiosidade e preconceito foi estabelecida, apesar de não saber-se ao certo a relação causal entre estas duas variáveis. Talvez as pessoas com menos escolaridade sejam ao mesmo tempo mais fundamentalistas e mais preconceituosas. Pode ser igualmente que o preconceito conduza à religião, levando as pessoas a desenvolverem idéias religiosas para sustentar seus preconceitos. Ou talvez a religião induza ao preconceito, ao levar as pessoas a acreditarem, já que Deus dotou todos os seres humanos com o livre-arbítrio, que os homossexuais não podem culpar ninguém senão a si próprios por sua situação. A explicação de que a Bíblia condena a homossexualidade não parece fazer muito sentido, pois a Bíblia condena muitas outras coisas às quais não damos a menor importância. O interesse pela homossexualidade está no fato de que ela representa o sexo fora de uma relação familiar entre um homem e uma mulher que desempenham papéis de gênero distintos mas complementares.

Alguns autores fazem uma análise ainda mais interessante das causas do preconceito contra homossexuais unindo as variáveis de status social e valores tradicionais. Para muitos indivíduos a adesão a valores e normas tradicionais é um componente fundamental de sua reivindicação de respeitabilidade, o que faz com que o questionamento destes valores feito pelos homossexuais seja um ataque implícito (ou explícito) a esta reivindicação. Indivíduos que possuem outras fontes de auto-estima podem ignorar estes ataques, mas para aqueles cujo sucesso material é limitado, respeitabilidade moral torna-se psicologicamente importante. Em outras palavras, pode-se dizer que indivíduos pertencentes às classes trabalhadora ou baixa classe média seriam mais preconceituosos porque defendem valores familiares tradicionais com mais tenacidade, ao mesmo tempo em que não possuem outras fontes de respeitabilidade social com as quais minimizar a perda de status decorrente da "normalização" da homossexualidade.

TOFAM - Diante da explosão do casamento gay e de outros benefícios como pensão, você acredita que caminhamos para a igualdade de direitos entre gays e heterossexuais ?

ADRIANA NUNAN - Espero que sim. Acredito firmemente na idéia de que os homossexuais devem ter os mesmos direitos que os heterossexuais, quer decidam usá-los ou não. Se os deveres são os mesmos para todo mundo, os direitos devem ser também.

TOFAM - O conflito assumir ou não assumir acompanha muitos jovens brasileiros. Você acha que essa questão está mais voltada para a família, para a sociedade ou os dois contribuiem para esse conflito ?

ADRIANA NUNAN - A assunção da homossexualidade é um assunto muito complicado e pessoal, pois envolve tanto o preconceito da sociedade, da família, quanto o preconceito que o indivíduo sente por ele mesmo (que em psicologia é chamado de "preconceito internalizado"). No caso de jovens o problema se agrava ainda mais, pois em muitos casos o adolescente é expulso de casa por seus familiares. Por isso, acho mais adequado o jovem ter condições financeiras de se sustentar sozinho antes de assumir a homossexualidade, pois caso sua família não o aceite (o que ocorre com frequência) ele pelo menos não terá problemas ainda maiores.

TOFAM - Os gays podem esperar dias melhores no sentido de haver menos preconceito e mais aceitação ?

ADRIANA NUNAN - Eu acredito que o preconceito tenderá a diminuir com o tempo, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Sabemos, através de estudos de psicologia, que o contato positivo entre gays e heterossexuais diminui o preconceito,pois as pessoas acabam se dando conta de que gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros são pessoas como todo mundo, com alegrias e tristezas. No fundo, os seres humanos almejam as mesmas coisas (ser feliz, ser amado, por exemplo) e quando as pessoas finalmente se derem conta disso acho que o preconceito diminuirá consideravelmente.

Fonte: Site Toda Forma de Amor, seção Entrevistas (12/10/2004)