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Além do arco-íris
Mercado gira US$ 54,1 bi nos EUA e está na mira de operadoras e escritórios oficiais

Turismo GLS decide "sair do armário"
Por Margarete Magalhães - da reportagem local
Por Heloisa Lupinacci - enviada especial ao Rio de Janeiro

Países como EUA, França, Alemanha e Holanda "saíram do armário". Investem em campanhas oficiais para atrair viajantes GLS, tratando-os com prioridade, alegria e respeito. Têm escritórios de promoção de turismo com funcionários exclusivos para atender o mercado de gays e lésbicas e se autodenominam "gay-friendly", receptivos e de braços abertos para acolher esse turistas.

Embora imprecisos, os volumosos números sobre perfil, gastos e hábitos do turista GLS fazem brilhar os olhos de quem está atrás desse dinheiro dito "cor-de-rosa".

Nos EUA, uma pesquisa aponta que gays e lésbicas movimentam US$ 54,1 bilhões na indústria do turismo por ano. O turismo GLS cresce 20% ao ano em todo o mundo, segundo as empresas especializadas nesse segmento. Viajantes gays e lésbicas permanecem mais tempo nos destinos turísticos, o dobro de um hétero. Fazem de três a quatro viagens durante um ano e, além disso, gastam 30% a mais.

Para o diretor-adjunto do escritório de turismo da França na América Latina, Emmanuel Marcinkowski, o turismo GLS faz parte das cinco prioridades da Maison de la France no Brasil, órgão de fomento turístico da França, e de outros escritórios no mundo.

No Brasil, a Embratur não tem uma campanha para divulgar o país como destino GLS no exterior, e as iniciativas das secretarias de Turismo de Estados como Rio, São Paulo, Bahia e Amazonas dão os primeiros passos para fora do "armário".

Enquanto isso, as primeiras medidas são vistas numa iniciativa pioneira em São Paulo, com a recém-criada Abrat (Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes; www.a bratgls.com.br), que reúne cinco agências especializadas e a rede Othon. O objetivo é qualificar o setor turístico através do treinamento, ensinando-o a lidar com gays e lésbicas de forma natural, sem "bas-fond" e com respeito, para que o Brasil seja reconhecido como um destino "gay-friendly".

A falta de habilidade no trato com o gay ou lésbica é comum.

Ao pedir um quarto para casal, o músico paulistano Bruno Tozzi, 37, ganhou um com duas camas de solteiro em Taubaté (SP), quando a recepção viu que seu acompanhante era um homem.

"As pessoas ainda ficam cheias de dedos", diz o presidente da Abrat, Nilton Paiva.

Na questão do turismo GLS, há quem o confunda com o turismo sexual, ou a "caçação". "É preciso acabar com o preconceito e entender que esse tipo de negócio não tem nada a ver com turismo sexual", diz Gilberto de Araújo, 37, diretor da Speedy Tour, que opera também pacotes GLS.

"Gay-friendly"

"Bombam" na lista das cidades queridinhas e receptivas para GLS São Paulo, Camboriú e Florianópolis (SC), Rio e Salvador, Juiz de Fora, Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, e Parati, no Rio, essa última considerada super "friendly".

O Rio é mais procurado por estrangeiros, em busca não só de um destino GLS mas também das paisagens mundialmente famosas da cidade. O turista nacional ruma para outras paragens, já a noite gay do Rio é bem menor, por exemplo, que a de São Paulo.

No exterior, Miami Beach (leia na pág.F4), Fort Lauderdale (Flórida) e San Francisco (Califórnia) dividem espaço em sites de turismo gay com Buenos Aires, Praga, Budapeste, além de Amsterdã e Londres, e de países como África do Sul e Austrália.

O que faz esses lugares "bombarem", segundo as pessoas ouvidas pela Folha, são ambiente democrático, diversidade, vida noturna agitada, artes, cultura, arquitetura e privacidade.

Porém para um lugar entrar na lista negra do turismo GLS não é preciso muito esforço. "A propaganda desse público é muito no boca a boca. Se um gay é maltratado em algum lugar, em pouco tempo a comunidade toda fica sabendo", explica Adriana Nunan, especialista nesse mercado.

Vale dizer que nem sempre o destino que agrada aos gays é de gosto das lésbicas. "A preferência [delas] é por um turismo artesanal, onde tenha mais natureza", diz Franco Reinaudo, diretor da agência Álibi Turismo.

Saber o que elas querem tanto é mais complexo que a Filadélfia, que lançou uma campanha de US$ 1 milhão a ser gasto em três anos para atrair o viajante gay e lésbica, esperará até 2006 para fazer promoções para as meninas.

Colaborou Roberto de Oliveira


Hotéis ajustam serviço para o segmento
Da enviada especial ao Rio de Janeiro

Olhares de esguelha, risadinhas, piadas. Esses são alguns "aleijos" que os clientes GLS encontram em hotéis, restaurantes e afins.

Embora não seja regra, há hotéis que buscam adequar o atendimento para varrer para fora o preconceito. Clóvis Casemiro, do Caesar Park de Fortaleza, já treinou funcionários das rede Tropical de Hotéis, Accor, Othon, Pestana e Caesar Park.

O treinamento visa ajustar o serviço ao "segmento que sempre existiu", apesar de o mercado ter acabado de se formar e tenha suas especificidades. "É preciso equipamento, assim como o ecoturismo requer guias especializados, o turismo GLS precisa de atendimento adequado."

A equipe treinada tira de letra situações inevitáveis. Por exemplo, a de uma camareira que entra no quarto de um casal gay para trocar toalhas sem ter uma reação desmedida. O principal foco do treinamento é o setor de reservas e o check-in, mas restaurante também merece atenção. Para Casemiro, "o maître deve ser discreto, mas não condescendente".

"Se um casal passa do limite, deve ser avisado. Isso vale para o casal gay. Os limites devem ser claros e iguais para ambos."

Uma gafe não precisa ser muito grave para azedar o molho. "O gay sofre preconceito, então é um cliente sensível", explica Adriana Nunan, psicóloga e autora do livro "Homossexualidade: do Preconceito aos Padrões de Consumo" (www.adriananunan.com).

"Ao tentar agir naturalmente, o atendente pode fazer uma piada, dar uma risadinha. É preciso um treinamento específico." O deslize nesse caso é especialmente prejudicial. "Esse é um público muito fiel. Mas, se maltratado, em pouco tempo a comunidade toda sabe."

Para contornar a questão, existem hotéis só para gays. O modelo existe em alguns países, mas sua aplicação é controversa no Brasil. "O brasileiro não precisa de segmentação", diz Casemiro, que, mesmo assim, crê que a abertura de hotéis para gays acontecerá.

Mas a criação de espaços gays é questão antiga. Nunan explica que, segundo a psicologia social, é o contato hétero-homo que diminui o preconceito. A criação de guetos, ou, em menor escala, de serviços exclusivos, pode favorecer a cristalização do preconceito.

Campanha quer atrair gays e lésbicas para o berço da independência dos EUA
Filadélfia gasta US$ 1 mi para ter GLS
Da reportagem local

Orgulhosa por ser o berço da independência dos EUA, a Filadélfia se vangloria de ser a primeira cidade norte-americana a ter uma propaganda na TV para atrair viajantes gays e lésbicas.

A campanha da Filadélfia para abocanhar esse segmento, que gasta US$ 54,1 bilhões por ano no país, é milionária. Será investido, nos próximos três anos, US$ 1 milhão para mostrar que a Filadélfia é "gay-friendly". Para ter uma idéia, o Brasil investiu R$ 30 milhões na promoção de todo o país no exterior em 2003.

Na TV, os personagens da propaganda usam modelitos da época da colonização. Um homem escreve uma carta e marca um encontro com o seu amor em frente ao Independence Hall, um dos pontos mais turísticos da Filadélfia - prédio onde foi lida a Declaração de Independência dos EUA, em 1776, e escrita a Constituição, em 1787. Corta. Uma garota flerta com ele. Eis que surge outro rapazola, e os dois saem juntos.

"Muito sutil", comenta Jeff Guaracino, diretor de marketing Gay do Greater Philadelphia Tourism Marketing Corporation (GMTMC), agência oficial de marketing turístico.

A campanha, cujo slogan é "get your history straight and your nightlife gay" -um trocadilho com a palavra "straight" que em inglês pode significar "direito" ou "hétero"-, quer dizer algo como aprenda história direito e tenha a vida noturna gay. A idéia é capitalizar o passado histórico da Filadélfia com o espírito "friendly" encontrado em muitos hotéis, bares, clubes e restaurantes.

Pode-se fazer turismo cultural, de artes e arquitetura numa área histórica próxima ao Independence Hall e a dez minutos a pé do Sino da Liberdade, ir a bares e restaurantes gays. Poucas quadras adiante, estão os teatros e o novo Kimmel Center, lar da famosa Orquestra Filarmônica da Filadélfia (www.philorch.org), uma das grandes orquestras do mundo.

Os gastos da campanha em 2004 são para convidar viajantes gays e lésbicas. Em 2005, promovem-se viagens para eventos GLS, estimulando-os a participar de outras atividades, como assistir à orquestra. E só no terceiro ano, haverá uma promoção para viajantes lésbicas.

"É mais difícil pesquisar o que as lésbicas gostam. Queremos fazer algo específico para atingi-las. Algo que nunca ninguém fez antes", diz Guaracino.

Segundo ele, uma pesquisa apontou que os turistas homossexuais que vão à Filadélfia gastam por dia US$ 179, contra US$ 98 dos turistas em geral. Constatou-se que os gays ficam 3,6 noites na cidade, fazem reservas online e que 42% deles vão à cidade para conhecer "gayborhood", distrito gay local.

A campanha lançada em novembro de 2003 já surtiu efeito. Foram mais de 50 mil acessos no site www.gophila.com/gay. Foi criada uma brochura com um plano de viagem para os homossexuais com 30 mil exemplares, que pode ser baixada pela internet. "Não é científico, mas há mais gays vindo para cá. É difícil ter números, pois ninguém diz: "Oi, sou um turista gay", eles preferem viajar incógnitos'".

Margarete Magalhães


Miami Beach ferve em diversidade
Da reportagem local

Miami Beach arrepia em sofisticação e resume a idéia de diversidade. Suas lojas de design, restaurantes e hotéis luxuosos ou descolados e a arquitetura em estilo art déco são desfrutados por visitantes de várias tribos. Mas esse visual bem cuidado nem sempre foi assim. A área onde hoje fica o distrito histórico Art Déco era o "uó" e só deu uma "vitaminada" com a ajuda dos gays.

Reunindo cerca de 800 prédios construídos entre 1933 e 1949, o distrito histórico em South Miami Beach (SoBe), foi relegado às traças por cerca de 20 anos.

"O distrito Art Déco tornou-se dilapidado, e alguns gays começaram a redescobrir a beleza de Miami Beach mudando-se para lá", diz George Neary, diretor de Turismo Cultural do Great Miami Convention & Visitor Bureau.

A revitalização de uma área pelas mãos dos gays não é exclusiva de Miami Beach. Também em Madri, o bairro de Chueca, antigo reduto de marginais, mudou seu estilo quando os gays o adotaram. Hoje seus estabelecimentos dividem espaço com grifes famosas.

No caso de Miami Beach, uma variedade de pessoas, muitas delas gays, avaliaram a importância do estilo arquitetônico e do design que estava se deteriorando.

Em 1976 foi criado o Miami Design Preservation League (www.mdpl.org), uma organização voltada para a preservação, a proteção e a promoção cultural da arquitetura do distrito. E a arquitetura teve um papel relevante na diversidade cultural em Miami Beach. "Foi-se construindo uma comunidade por meio da arquitetura", explica Neary.

Talvez seja por causa dessa comunidade que Miami Beach leve vantagem em relação a outras áreas gays em cidade americanas, como o Village, em Nova York, ou Castro, em San Francisco.

Pelas principais avenidas, a Collins, a Washington e a Ocean Drive, a diversidade é nítida. Ali circulam uma mãe com uma criança correndo à sua frente, gays andando de patins, velhinhos tomando sorvete, casais héteros e gays de mãos dadas.

"Os héteros podem nem perceber que estão andando numa área "gay-friendly'", conta Neary.

O curioso é que, por mais que Miami Beach receba superbem homossexuais, não há festival gay. "As pessoas se sentem confortáveis conosco e não precisam disso. Faz sentido?", indaga. "Pode tirar o gay do termo "gay-friendly" e dizer que Miami Beach é "muito "friendly'". (MM)

Escritórios de turismo engatinham no incentivo do turismo GLS e já arriscam seus primeiros passos
Amazonastur faz viagem gay para a selva
Da enviada especial ao Rio de Janeiro

O Brasil ainda não tem gerentes de turismo gay para cada região, mas os primeiros passos estão sendo dados para incentivar a vinda de turistas GLS e adequar os serviços ofertados a esse público.

A Amazonastur, empresa estadual de turismo do Amazonas (www.amazonastur.am.gov.br), em parceria com a rede Tropical de Hotéis e o hotel Ariaú Towers, reuniu neste mês um grupo de 16 pessoas, entre presidentes de associações de orgulho gay e jornalistas da mídia especializada, em uma viagem para apresentar o turismo GLS no Estado.

O objetivo da viagem foi mostrar Manaus e seu entorno como um destino "gay-friendly". O grupo conheceu a capital do Estado, fez passeios tradicionais, como ao encontro das águas dos rios Negro e Solimões, e pernoitou no hotel Ariaú Amazon Towers.

A Amazonastur vê o segmento como um dos que mais crescem, ao lado do turismo de cruzeiros.

"Vitaminado"

A estatística que afirma que o turista GLS gasta mais em suas viagens faz com que ele seja um visitante cobiçado por todos os Estados e cidades.

Cláudio Taboada, presidente da Bahiatursa (www.bahiatursa.ba.gov.br), afirma que "esse é um turista inato, que tem necessidades e desejos aguçados". Para atender bem o público GLS, o órgão baiano se aproxima cada vez mais do Grupo Gay da Bahia. A preocupação principal de Taboada é com o preconceito. "Não enxergamos consumidores, mas sim pessoas."

Outro escritório de turismo que já tentou mexer seus pauzinhos para melhorar os serviços para o turista GLS é o Riotur (www.riodejaneiro-turismo.com.br). O Rio é um dos destinos mais procurados pelo turista GLS do mundo todo. Há um ano e meio, em um encontro da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), em uma reunião com diversas associações de turismo, o grupo Arco-Íris de Conscientização Homossexual fez uma apresentação sobre a importância do turista GLS.

O São Paulo Visitors & Convention Bureau (www.spcvb.com.br) afirma que suas ações são pautadas por seus associados. O escritório, que não tem entre seus associados nenhuma empresa ou associação GLS, garante que apóia tanto a associação de membros para representar o segmento quanto seus possíveis projetos.

Clóvis Casemiro, que já presidiu a IGLTA (associação internacional de turismo GLS), concorda com o modus operandi do SPC&VB: "Não dá para esperar que a iniciativa seja oficial, é preciso tomar as rédeas e propor projetos para secretarias de Turismo. A resposta tende a ser positiva".

Heloisa Lupinacci


No Brasil, Parati ganha na amabilidade
Da reportagem local

Sem uma superbadalação noturna, mas dona de um dos mais belos conjuntos arquitetônicos do século 18 no Brasil, Parati, a 237 km do Rio, é quase uma unanimidade no quesito simpatia e bom atendimento direcionado aos turistas homossexuais que rumam para lá.

"Parati é uma cidade super "friendly". A história, o povo, o prefeito gay. Tudo conspira [para ser "gay-friendly]", diz o presidente da Abrat, Nilton Paiva, e diretor da agência Inter-Rainbow.

A cidade reúne arte, restaurantes e pousadas, muitas delas administradas por estrangeiros europeus, que na propaganda boca a boca, divulgaram Parati para o turista estrangeiro.

Segundo o prefeito de Parati, José Cláudio de Araújo, 50, Parati recebe muita gente desde o século 18. "A miscigenação ajudou a cidade a abrir a cabeça, a ter uma visão de naturalidade", diz.

Para ele, o vasto calendário de festivais, que englobam cinema, literatura e dança, também contribuiu para chamar os visitantes GLS para a cidade. "Temos um calendário que não é para o gay, mas para o público todo." (MM)


Maioria das paradas é em junho
Free-lance para a folha

De Campinas, cidade "avant-garde" no reconhecimento de direitos homossexuais no Brasil, a Juazeiro do Norte (CE), tradicional terra de cabras-machos, o Brasil tem 40 paradas gays ao ano.

As próximas serão em Juiz de Fora (MG), no dia 21/8, Florianópolis (SC), no dia 29/8, Boa Vista (RR), no dia 11/9, e em Rondonópolis (MT), no dia 24/9.

A maior parte das paradas acontece em junho, pois foi nesse mês, em 1969, que uma manifestação no bar Stonwall Inn, em Nova York, deu a largada aos movimentos de orgulho gay.

Em 1969, eram ilegais os lugares que reunissem homossexuais em Nova York. E esse era o caso do Stonewall Inn. Na noite do dia 27, policiais entraram ali para prender freqüentadores. Os clientes foram para a rua. Quando a polícia saiu do bar, começou um protesto que se desenrolou por dias.

No Brasil, as datas das paradas são definidas por volta de março, depois de diversas reuniões. "A definição das datas leva em conta outros festejos. No Nordeste, elas acontecem perto das festas de são João, em São Paulo, ela é ligada ao Corpus Christi", explica Beto Kaiser, que comanda a Parada da Diversidade de Curitiba. (HL)


Noronha tem ecoturismo homossexual
Em Fernando de Noronha (PE)

Que Fernando de Noronha é um dos maiores espetáculos da Terra não é novidade. Mas a nova é que o arquipélago começa lentamente a se abrir para o ecoturismo GLS e tem todos os requisitos para se tornar a grande sacada da temporada de verão.

Os ventos sopram bem de leve, mas a favor. Primeiro: o ecoturismo é um dos segmentos que mais crescem dentro do turismo mundial, justamente ao lado dos destinos GLS. Segundo: se os casais "straight" adoram rolar pelas praias enquanto assistem ao pôr-do-sol, namorar na lua cheia ouvindo só o barulho das ondas, desbravar de mãos dadas um dos melhores pontos de mergulho do planeta, por que os gays não podem deixar de lado a ferveção das boates urbanas e desfrutar o frescor das mesmas riquezas naturais deste "paraíso" tropical?

Terceiro e óbvio: claro que não só podem como devem. Para completar a festa, é cada vez maior o número de operadores e agências de turismo especializadas na ilha que ampliam o cardápio de atrações voltado para o público GLS. Hoje, gays, lésbicas e simpatizantes visitam o arquipélago pernambucano, a 545 km de Recife, porém não há praticamente nenhum programa voltado ou desenvolvido exclusivamente para esse público.

Antes de mais nada vale a pena se ligar: como qualquer ponto de badalação, Noronha tem gays espalhados por todo canto lidando com turistas: das pousadas mais simples às mais sofisticadas, dos restaurantes finos ao popular self-service, dos guias de turismo a funcionários públicos, da pizzaria ao forró do Cachorro -o agitado ponto de encontro de nativos e forasteiros.

A população GL (gays e lésbicas) acabou disseminando o S (simpatizante), e o espírito "gay-friendly" tomou conta do arquipélago. Afinal de contas, quem se estressará ou se preocupará com a sexualidade alheia num cenário tão afrodisíaco como aquele?

É bom lembrar que a maré está alta para todos os peixes. O jeito é se deixar contagiar pelo clima colorido dos corais que abraça o arquipélago. Comece pela alegre pousada do Zé Maria, um personagem-símbolo de Noronha. Se não puder se hospedar lá, um típico ambiente "gay-friendly", não perca um dos concorridíssimos jantares organizados por ele sempre às quartas e sábados. A comida é ótima, o atendimento é de primeira e sempre vira festa no final. Não se assuste se terminar com show de "drag queen".

Roberto de Oliveira


Cavalgadas e passeios inspiram o romance
Em Fernando de Noronha

A animação em Noronha rola de dia e à noite, no mar ou em terra firme. Reserve energia e disposição. Comece a aventura com uma cavalgada na lua cheia por praias como a da baía dos Porcos, diante do morro Dois Irmãos, indo até a do Sancho e chegando à praia por uma escada encravada em uma fenda na falésia.

Belo convite, sobretudo para casais. As cavalgadas custam R$ 70 por pessoa. São organizadas pela agência Your Way (tel. 0/xx/81/ 3619-1796), com base em Noronha, de agosto a novembro, fora da época de desovas de tartarugas-marinhas. O que não falta por lá é gente ecologicamente correta. A natureza agradece.

Na manhã seguinte, sol gritando, calor forte. Se a idéia é se jogar no mar, há passeios privativos em lanchas com sashimi a bordo e mergulho pelo mesmo preço.

Que tal apreciar a vista de Noronha a partir do mar, a 500 m da terra? Melhor: em dupla. Passeie de caiaque pela costa. Pare para um snorkeling na Conceição. Custa R$ 60 e vale a viagem.

Reserve meio dia para as trilhas GLS, com almoço na praia da Conceição, no bar do Duda Rei, ou para a happy hour no bar do Boldró, na praia de mesmo nome, que custa R$ 35 (sem refeições).

A Ponta Negra Tour (tel. 0/ xx/ 84/219-5121), com sede em Natal, especializada em Noronha, é outra que faz pacotes GLS, trabalhando com agências de São Paulo. Na ilha, a hospedagem é em pousadas, das mais simples às sofisticadas, todas "gay-friendly".

Um dos programas mais badalados da Ponta Negra são os "batismos" de mergulho, com a Atlantis Divers (tel. 0/xx/81/3619-1371), do francês Patrick Müller, que opera três barcos próprios. Pule de cabeça. O batismo é feito com visitantes que não têm credencial de mergulhador. O turista é guiado por um mergulhador e pode descer a até 13 m. Dura em média 30 minutos. O local do mergulho é decidido na hora. Opções não faltam: são 20 pontos.

Qualquer época é boa para mergulhar em Noronha, mas de agosto a dezembro chove menos, e a água está mais clara. No mar, arraias, polvos, moréias e até tubarões. Quanto custa? R$ 220. Ampliar o seu conceito de sedução? Não tem preço. Noronha fica para sempre na memória. (RO)

Fonte: Folha de São Paulo, Caderno de Turismo, p. F1-F8 (26/7/2004)