English / Español

Maria ama Pedro, que ama José
As incríveis histórias de mulheres que se apaixonaram por homossexuais e até chegaram a namorá-los

Por Guilherme Samora

MAIS DE DEZ ANOS depois da separação, Solange encontrou seu primeiro namorado trabalhando como “caricata” — gíria para designar homens que se vestem de mulher com visual engraçado — numa boate

Aos 13 anos, Solange Dias saía todo final de semana com uma amiga para dançar. Ao chegar na danceteria, ficava tentando chamar a atenção do segurança do local. Oito meses depois, conseguiu o que queria: conquistou os olhares de Jorge e começaram a namorar. “Foi meu primeiro amor, ele era lindo. Todas as meninas davam em cima dele e ele nem ligava. Já existia um boato de que ele era gay”, conta Solange. Sem se preocupar com as fofocas, eles ficaram um ano juntos. Mais de 10 anos depois, Solange foi com um grupo de amigos a uma boate GLS de São Paulo. Ao chegar, foi anunciado o show de uma “caricata” — um homem que se veste de mulher com produção engraçada para fazer o público rir. Durante o show, ouviu uma voz familiar no palco: era o ex-namorado. “Foi muito difícil, mas hoje somos amigos.”

Numa época em que a solidão faz parte do cotidiano de muitas mulheres, bonitas e emancipadas, depoimentos como este são menos raros do que se imagina. Algumas acabam nos braços de um parceiro gay porque não conseguem enxergá-lo como é, mas como gostariam que fosse. Outras porque tem uma queda por relações diferentes. Apesar da experiência difícil, Solange, hoje com 28 anos, voltou a se envolver com um homossexual, mesmo sabendo de sua orientação sexual. “Foi uma noite apenas. Não vou deixar de ficar com um cara porque ele é gay, mas sei que paixões como essas podem ser dolorosas.”

Marcos André Pinto
A psicóloga Adriana Nunan: a carência pode ser a motivação

A psicóloga especializada em homossexualidade Adriana Nunan, autora do livro “Homossexualidade: do Preconceito aos Padrões de Consumo” (Editora Caravansarai), afirma que não existe uma única explicação para a preferência de algumas mulheres por gays. “Carência e medo de relacionamento sério são possibilidades. A outra seria o fato de alguns homens gays possuírem características valorizadas pelas mulheres, tais como sensibilidade, educação, gentileza e o que o leigo chama de ‘bom gosto’ — para se vestir, por exemplo.” O único porém de namorar um gay é o mais óbvio: tudo pode correr às mil maravilhas enquanto a principal preocupação é se divertir. O risco é cair num envolvimento maior, quando surgem planos para um futuro comum.

Marcos André Pinto
MARÍLIA chegou a namorar um colega mesmo sabendo de sua orientação sexual. “Gostei muito dele, foi amor mesmo”, explica

A estudante Marília Vasconcellos, de 20 anos, que faz cursinho, namorou durante seis meses um homossexual, sabendo de sua opção. Marília enumera as qualidades dos gays: “A maioria se preocupa com o visual. Imagine se eles vão sair com você de bermuda e chinelo! E o melhor é que têm bom gosto e podem ajudar a gente a se produzir.” A promotora de eventos Luciana Bittencourt conta que teve uma experiênciaúnica ao ficar com um homossexual numa boate e concorda com Marília. “Eles sabem arrasar, compram roupas bonitas, usam bons perfumes. Hoje em dia, até os heteros mais preocupados com a moda copiam o estilo que antes era característico dos gays. De onde você pensa que saíram essas camisas mais justas e cabelos arrepiados?”, acrescenta, referindo- se ao padrão de comportamento chamado metrossexual.

Considerada uma das parcelas da população com maior poder de compra, de acordo com o IBGE, os gays representam cerca de 14% da população brasileira (24 milhões de pessoas). As pesquisas de mercado indicam que, por causa da natural dificuldade dos casais homossexuais em terem filhos, eles têm um poder aquisitivo 44% maior que os heteros e, por isso, gastam mais com roupas, perfumes e produtos para consumo próprio.

BÁRBARA afirma que ficou tão apaixonada por um amigo gay na adolescência que chegava a chorar e pedir conselhos para amigas

Além disso, a atenção que alguns homossexuais dispensam às mulheresé outro fator que conquista algumas delas. “Costuma haver uma afinidade maior, já que o universo de muitos homens gays se aproxima um pouco mais do mundo feminino, o que aumenta o nível de compatibilidade”, afirma o psicólogo Klecius Borges, especializado em aconselhamento e psicoterapia afirmativa para gays, lésbicas e bissexuais. Para Karen Negrão, de 31 anos, que trabalha com artesanato, o sonho de toda mulher é encontrar um homem que a escute e entenda.“E grande parte dos gays consegue nos ouvir sem perder a paciência. O melhor é que sempre dão conselhos valiosos.” Tanto que no caso da relações públicas Bárbara Bijos, de 28 anos, uma grande amizade foi o pontode partida para a paixão. “Eu o conheço desde que era adolescente. Gostei muito dele. Foi aquele tipo de paixão que faz a gente chorar”, conta ela. Bárbara chegou a fazer simpatias para tentar atraí-lo. “Cortei a foto e coloquei em um copo de água com açúcar. Claro que não funcionou.” Apesar do sofrimento, os dois continuam amigos. “Acho que toda mulher tem que ter pelo menos um amigo gay. É uma coisa básica”, atesta.

O PSICÓLOGO Klecius Borges afirma que pode haver uma afinidade maior das mulheres com os gays do que com heterossexuaiss

A história da estudante de letras Marjory Ors, de 21 anos, também começou com uma amizade. “Eu não sabia que o Henrique era gay. Ele foi umótimo namorado, sempre lembrava de datas especiais, escrevia cartas e bilhetinhos perguntando como eu estava e dizendo que me amava. Que mulher não gosta de receber atenção?”, diz. Alvo da paixão, o cabeleireiro Henrique Dias devolve os elogios:“Ela era meu refúgio. Ficamos juntos um ano, três meses e um dia”.

Marjory conta que depois do final do namoro ainda ficaram algumas vezes, fazendo com que tivesse esperança em reatar. “Certo dia ele me contou que era gay. Como chorei! Com o tempo acabei me conformando, tive outros namorados. Mas não tive a mesma afinidade e liberdade que tinha com ele. Ainda estou à procura de um grande amor”, confessa.

Especialista em sexualidade, a psicóloga Thays Babo afirma que o único problema de uma mulher se apaixonar por gays é quando isso vira uma obsessão. “Só podemos começar a achar que é algo patológico se a mulher só se apaixonar por homens gays. Se for apenas uma vez, não há nada que se possa afirmar”, explica.

DALILA ficou dois anos apaixonada por um rapaz e só foi descobrir que ele era gay depois de vê-lo beijando outro

A universitária Dalila Gomes, de 21 anos, acha que é perfeitamente normal algumas mulheres se apaixonarem mais de uma vez por homens gays. “Tive uma paixão que durou dois anos. Chegamos a ficar uma vez e percebi que não ia rolar, mas não sabia o motivo. Um dia, saímos para dançar e o vi beijando um homem”, conta. Dalila afirma que no primeiro momento ficou chocada. “Mas depois pensei: pelo menos não vou sentir a raiva de ter sido trocada por outra mulher”, diverte-se a universitária que, depois disso, já teve várias paixões nesse meio. “Depois que namorei um menino hetero pude ver a diferença. Adoro dançar, e com ele não tinha como colocar uma música da Madonna e pedir para ele brincar de fazer a coreografia comigo! Ser gay pode fazer a diferença.”

OLÍVIA ANDREOLLI acredita que a cumplicidade nesse tipo de relação é maior do que com namorados heterossexuais

Segundo o psicoterapeuta sexual João Batista Pedrosa, existe mesmo diferença na relação mais íntima entre mulheres hetero e homens gays.“O homem heterossexual, em conseqüência da nossa formação cultural, apresenta como alicerce das suas relações o machismo. Apresenta um padrão de relacionamento em que a genitalização do sexo é muito forte. Ou seja, um empobrecimento da relação sexual, em que o carinho e as preliminares não são muito valorizados e sim o coito. Já o homem gay, valoriza muito mais as preliminares e a cinestesia, que é o carinho propriamente dito”, explica o especialista.

SEM PRECONCEITO: a maquiadora Chiara Rodello garante que foi muito feliz num relacionamento de seis meses com um amigo gay

“Eles são mais sensíveis, humanos e sem preconceito”, aponta a maquiadora Chiara Rodello, de 26 anos, que namorou um homossexual durante seis meses. “Era uma relação normal, mas eu sei até onde posso me envolver com um cara assim, sei que nunca terá um futuro”, afirma. Responsável pela comunicação interna de uma empresa, Olívia Andreolli, de 22 anos, aposta que a cumplicidade é o ponto alto dessas relações. “No ano passado namorei um menino gay, e existia uma cumplicidade que nunca tive com outros homens”, observa.

Manuela descobriu, depois da separação, que seu primeiro namorado é gay

Segundo ela, no começo eles escolheram uma relação aberta: cada um poderia ficar com quem quisesse.“Mas foi ficando mais sério e acabamos com isso. Depois de um tempo resolvemos nos separar. Hoje continuamos grandes amigos. Nunca houve crise, mas não deixa de ser diferente”. Essa diferença marcou o primeiro namoro de Manuela Vergamini, de 26 anos. “Eu tinha 16, ele 14. Ficamos um ano e meio juntos. Sete anos depois descobri que ele estava saindo com homens. Não tenho preconceitos, mas parece que essa vontade de experimentar de tudo está virando moda.” Para o psiquiatra do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da USP e professor da PUC-SP, Alexandre Saadeh, a experiência é válida se os envolvidos estiverem de acordo.“Mas existem homossexuais masculinos mal resolvidos que se aproveitam disso para fazer pose perante a família, por exemplo”, a firma.

KAREN conta que o sonho de toda mulher é encontrar um homem que a escute e entenda. O psiquiatra Alexandre Saadeh afirma que é necessário que as partes envolvidas estejam de acordo com a situação

Filmes e seriados

Para Saadeh, esses relacionamentos. hoje são aceitos com mais naturalidade. “A sexualidade está mais aberta e os limites menos rígidos”. Prova dessa mudança é que o cinema e a TV já abordam o tema com mais freqüência. “Filmes como ‘A Razão do Meu Afeto’, ‘Sobrou Pra Você’ e seriados como o ‘Will & Grace’ têm aceitação, boa repercussão e conquistam um grande público”, analisa.

Banho de loja, modos e cultura
Bermudão e chinelo. Pilhas de roupas sem lavar espalhadas pela casa. Cabelo sem corte ou lavado com qualquer coisa que estiver ao alcance das mãos. Um grupo de amigos gays americanos, ouvindo essas e outras reclamações das mulheres sobre os namorados, criou o programa “Queer Eye for the Straight Guy”, que passa no Brasil no canal Sony. A missão é transformar homens rudes em seres capazes de saber quais produtos passar no cabelo, quais roupas usar e até a qual filme assistir. Um decorador (Thom Filicia), um estilista (Carson Kressley), um chef de cozinha (Ted Allen), um guru da beleza (Kyan Douglas) e um assessor de cultura (Jai Rodriguez) já transformaram mecânicos, criadores de softwares e até um cowboy em homens que sabem discutir moda e escolher a loção pós-barba correta para seu tipo de pele.

Em “A Razão do Meu Afeto”, Jennifer Aniston faz o papel de uma mulher que é apaixonada pelo colega de quarto, que é homossexual assumido. Já, em “Sobrou Pra Você”, Madonna e Rupert Everett interpretam um casal diferente: ele é gay, mas têm um filho juntos e resolvem criá-lo como uma família. Mas o que mais aponta para o sucesso desse tema é o seriado “Will & Grace”, que no Brasil é exibido na TV a cabo pela Sony e na TV aberta pelo Canal 21. A série, que está na sétima temporada, foi apontada como a terceira favorita entre adultos e a que mais conquista audiência. Além disso, já ganhou mais de 20 prêmios. “Há alguns anos, um seriado não poderia falar do relacionamento entre um advogado gay e uma decoradora judia”, afirma Saadeh.

Apesar da aparente normalidade com que algumas mulheres tratam do tema, o psicoterapeuta João Batista Pedrosa alerta: “Uma mulher hetero só irá se realizar sexualmente e afetivamente na sua plenitude com um parceiro hetero. Assim como um homem homossexual só irá se realizar com outro homem homossexual.”

Fonte: Jornal Diário de São Paulo, Revista Já, p. 8-14 (11/4/2004)