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Pesquisa sobre mercado gay
Resenha de Denilson Lopes*

O lançamento de Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo, de Adriana Nunan, somado à crescente visibilidade da homossexualidade, seja em novelas e seriados de televisão, na realização de paradas reunindo as diversas orientações sexuais em várias cidades brasileiras, bem como a criação da Frente Parlamentar defensora da diversidade sexual, pode nos fazer esquecer que há uma história por trás.

A partir dos anos 70, na universidade brasileira, alguns antropólogos como Peter Fry, Edward Macrae, Luiz Mott, Carlos Alberto Messeder Pereira e Maria Luíza Heilborn colocam em pauta a homossexualidade. Talvez seja no intervalo entre história e antropologia, presente no trabalho destes autores, que podemos contextualizar as publicações recentes de James Green, Tânia Navarro Swain e Richard Parker.

Se a antropologia foi o carro-chefe dos estudos sobre homossexualidade no Brasil nos anos 70, a partir dos 80 o eixo parece ter migrado para os estudos literários, tanto nos esforços da crítica brasileira quanto da brazilianista , desde os trabalhos pioneiros, feitos geralmente fora da universidade, como os de Winston Leyland, Herbert Daniel, Leila Míccolis, Maria Lúcia Faury, João Silvério Trevisan e Paulo Hecker, até a atual geração de professores universitários, especialmente influenciados pelos estudos gays e lésbicos e pela teoria queer norte-americanos que se cristalizaram na criação da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura. Entre outros, José Carlos Barcelos, Mário Lugarinho, Marcelo Secron Bessa, Fernando Arenas, Ricky Santos, José Luís Foureaux, Bruno Leal, Fernando Arenas se somam a críticos de gerações anteriores, como Silviano Santiago, Ítalo Moriconi, Maria Consuelo Cunha Campos, Daneil Balderston, David Foster e Raul Antelo. É importante lembrar que a relação entre homossexualidade, imagem e meios de comunicação de massa deve ser desenvolvida, mas há de se destacar os trabalhos em andamento de Antônio Moreno, João Luiz Vieira, José Gatti e Wilton Garcia.

Em Homossexualidade, tendo como base a psicologia social e a base sócio-histórica dos estudos gays e lésbicos, Adriana aponta para um tema que necessita ser explorado: a relação entre homossexualidade e mercado. Para evitarmos a imediata transposição dos EUA de temas como mercado gay bem como discursos genéricos que ora celebram no consumo uma possibilidade mesma de cidadania, ora criticam qualquer associação entre minorias e mercado como formas de cooptação, o trabalho de Adriana tem uma especial contribuição em trazer o debate para o campo empírico, ao realizar pesquisa entre homens gays de camadas socioeconômicas média e alta na Zona Sul do Rio de Janeiro, sem reafirmar o clichê midiático que associa homossexualidade, consumismo e padrão social acima da média brasileira, desconsiderando a existência de homossexuais pobres.

Minha maior restrição ao trabalho de Adriana é que, em vez de se alongar na apresentação de questões como homofobia, movimento gay e identidade homossexual, poderia ter aprofundado a discussão sobre homossexualidade e mercado, tema crucial que divide os que defendem uma maior integração da homossexualidade ou os que insistem no caráter transgressor das práticas minoritárias.

Fechando o livro, uma última pergunta insiste. Do preconceito a padrões de consumo, muito se andou na sociedade brasileira. E na universidade? Se ainda podemos perguntar quem tem medo dos estudos gays, temos que cada vez mais perguntar quem precisa dos estudos gays no Brasil. Não apenas como recurso de jovens professores em busca de espaço no mercado acadêmico brasileiro, nem como mera importação de modismo. O grande desafio teórico e político é transitar do lugar específico da homossexualidade, intervir na construção de uma sociedade e de uma universidade mais diversificada.

Homossexualidade
Adriana Nunan
Distribuidora Caravana de Livros (2265-3168), 360 páginas
R$ 38

*Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UnB, presidente da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, autor de O HOMEM QUE AMAVA RAPAZES E OUTROS ENSAIOS

Fonte: Caderno Idéias e Livros, Jornal do Brasil, p. 5 (24/1/2004)